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Até Covid leve pode gerar anticorpos contra o paciente, diz estudo

O estudo foi conduzido com um grupo de 177 profissionais da saúde

OMS batizou de
Foto: Reprodução

Casos leves de Covid-19 podem produzir anticorpos responsáveis por atacar células, órgãos e tecidos dos corpos daqueles que foram infectados mesmo após meses da recuperação.

Chamados de autoanticorpos, surgem no sistema imunológico e são os responsáveis por diversos distúrbios autoimunes como lúpus, artrite reumatoide, esclerose múltipla e outros.

Quando uma pessoa é infectada por um vírus, o sistema imunológico diferencia as proteínas do organismo das proteínas estrangeiras e, assim, desenvolve anticorpos.

Às vezes, porém, pessoas produzem os autoanticorpos, que têm a capacidade de agredir o corpo humano ao invés de fazer a tarefa usual dos anticorpos, que é protegê-lo.

A descoberta foi divulgada em um estudo publicado pela revista científica Journal of Translational Medicine, feito por pesquisadores do Hospital Cedars-Sinai.

O estudo foi conduzido com um grupo de 177 profissionais da saúde, sendo 65% mulheres e 45% homens, com idade média de 35 anos, que comprovadamente desenvolveram a Covid-19. Os voluntários foram retirados de uma empresa de prestação de saúde de Los Angeles, nos Estados Unidos.

Como grupo de controle, os pesquisadores utilizaram amostras que haviam sido colhidas antes do início da pandemia de coronavírus de 53 pessoas saudáveis . Dessas, 49% eram mulheres e 51% homens.

Todos aqueles que já havia desenvolvido a doença tinham níveis elevados de autoanticorpos. Alguns eram dos mesmos tipos dos encontrados em doenças autoimunes em que o sistema imunológico ataca as próprias células, como lúpus e artrite reumatoide.

Outros estudos já haviam atestado a presença de autoanticorpos em casos moderados e severos de Covid-19. Este agora mostra que casos assintomáticos e leves também podem resultar na criação deste tipo de anticorpos e que o quadro persiste após a infecção.

O grupo foi avaliado por meio de uma amostra de sangue e um questionário que buscava entender quais dos 21 sintomas de Covid-19 reportados os voluntários tiveram nos seis meses anteriores à coleta do sangue. A gravidade da doença foi definida com base no número de sintomas.

Se o voluntário não tivesse sentido nada, era considerado assintomático. Se reportasse de um a sete sintomas, seu caso era tratado como leve. Com mais de sete sintomas, o caso era considerado mais grave do que leve -o estudo não determinou o número de sintomas para casos moderados ou graves.

Justyna Fert-Bober, co-autora do estudo no departamento de cardiologia do Smidt Heart Institute, disse em artigo publicado no site do Hospital Cedars-Sinai que os resultados ajudam a entender por que a Covid-19 é uma doença especialmente única.

“Esses padrões de desregulagem imunológica podem estar por baixo dos diferentes tipos de sintomas persistentes que nós vemos em pessoas que desenvolvem a condição agora chamada de Covid-19 longa”, disse.

Na Covid longa, as pessoas podem sentir os efeitos da doença durante meses. Um estudo britânico apontou que a incidência de sintomas prolongados da doença foi 50% maior em mulheres e duas vezes mais frequente em pessoas com mais de 70 anos.

A pesquisa investigou a capacidade de criação de autoanticorpos em homens e mulheres após a infecção. Enquanto a resposta de anticorpos desse tipo foi maior em mulheres após infecções assintomáticas, foi superior em homens quando se analisaram casos leves.

De forma geral, homens demonstraram um nível maior de autoanticorpos do que mulheres, principalmente conforme os casos iam se agravando. A descoberta contraria o senso comum sobre autoanticorpos que causam doenças autoimunes, de que eles afetariam frequentemente mais mulheres do que homens.

Por outro lado, os pesquisadores não encontraram diferenças estatisticamente significativas nos sintomas reportados por homens e mulheres, embora alguns como febre, falta de ar, diarreia, conjuntivite e calafrios sejam mais comuns em homens, e outros como perda de apetite, náusea e tosse produtiva mais encontrados em mulheres.

Por Victoria Damasceno