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Artista que foi engenheira e depois ambulante provoca mercado de arte ao doar obra

Alice Shintani desmonta instalação para dar fragmentos a funcionários da Bienal e mostra série sobre plantas em extinção

Foto: Reprodução

Quando voltou ao circuito da arte após alguns anos afastada, período no qual vendeu brigadeiros nas ruas de São Paulo, Alice Shintani passou a pintar abstrações com tinta guache em sanfonas de papel. Conforme o trabalho se desenvolveu, ela colocou as sanfoninhas coloridas sobre dezenas de caixas de papelão de produtos alimentícios e de limpeza recolhidas de um mercado da Liberdade, o bairro japonês da cidade.

O resultado foi uma instalação chamada “Menas”, um dos trabalhos mais conhecidos da artista, mostrado anteriormente em galerias e agora em exibição na Bienal de São Paulo. Mas o futuro dessa obra não será integrar uma nova exposição ou embelezar a casa de um colecionador –ao menos não da maneira como ela é hoje. No final da Bienal, como uma provocação ao mercado que valoriza financeiramente o que se vê em grandes mostras, Shintani vai desmembrar o trabalho e doar as suas partes.

“Tem cerca de 400 a 500 pessoas que trabalharam para fazer essa Bienal. Montador, bombeiro. A ideia é compartilhar uma sanfoninha com cada uma das pessoas que trabalharam. Da faxineira que lava o banheiro até o José Olympio [presidente da Fundação Bienal], todo mundo vai ter direito a uma sanfoninha. Lá [na Bienal] não tem comércio, o comércio é aqui na galeria”, afirma a artista, numa conversa na sala onde as suas pinturas estão expostas agora, na galeria Marcelo Guarnieri. “Por isso que eu chamo aqui ‘Mata à Venda’.”

Shintani se refere à mostra na galeria paulistana que a representa, composta por 17 pinturas de grande formato e dois vídeos curtos. Feitas este ano, as telas retratam, de maneira não muito explícita e sempre sobre um fundo preto, plantas da Amazônia ameaçadas de extinção. São como versões maiores de uma outra série, “Mata”, formada por pequenas guaches com a mesma temática também expostas na Bienal e que a artista faz questão de dizer que não estão à venda, para diferenciar da mostra na galeria, e que passarão a integrar seu acervo quando o evento acabar.

Embora suas pinturas, instalações e ações no espaço público –como quando pendurou bandeirinhas pintadas nos arredores de uma biblioteca em São Paulo– não tragam em si questões relativas ao mercado de arte, isso é uma preocupação constante da artista. Em meados dos anos 2000, quando já no início de sua carreira era representada por quatro galerias e conquistava espaços em exposições, ela conta ter passado a se sentir um produto e ficado decepcionada com a voracidade do mercado, que demandava dela novas obras constantemente, na velocidade de coleções de moda.

A saída foi se afastar do circuito e, por escolha, passar a vender brigadeiro na rua, aos 43 anos. “Arrumadinha, colocava um batonzinho vermelhão e um vestidinho bonitinho”, ela conta. Entre 2014 e 2015, tirava cerca de R$ 600 por dia, mas conforme a crise econômica avançou os rendimentos minguaram. A gota d’água foi quando a polícia lhe tomou um tabuleiro de doces, momento no qual ela afirma ter se dado conta de que estava sendo um tanto suicida na sua vida de ambulante e que poderia voltar a produzir arte, lidando com o mercado como ele é.

Nascida na periferia de São Paulo, filha de feirantes, Shintani se tornou artista depois dos 30, após largar uma carreira bem-sucedida em engenharia da computação. Ela participou do projeto-piloto da instalação da primeira banda larga de internet na capital paulista e relata com orgulho ter sido a primeira pessoa a segurar um “cable modem” no país. Seu começo foi num curso de pintura ministrado pelo pintor e desenhista Dudi Maia Rosa no Museu de Arte Moderna de São Paulo, antes de expor no Centro Cultural São Paulo, ser procurada por galerias e entrar no circuito.

Seus trabalhos hoje são disputados por colecionadores e alguns atingem marcas próximas aos R$ 100 mil. Mas “mais do que três dígitos é especulação”, ela diz. Sua visão de arte é algo idealista, reconhece, falando em seguida entre porosidade entre arte e vida. Ela dá como exemplo alguns contêineres cobertos por panos pretos que viu na saída de uma estação de metrô, “porque era muito esquisito, parece Carmela [Gross, artista que tem uma obra na qual uma lona recobre uma grande estrutura metálica]”.

Para Shintani, a arte não precisa estar vinculada a exposições institucionais ou a galerias comerciais, mas sim mais perto das pessoas, sem hierarquias ou uma plaquinha sinalizando a obra. É “quando você está no seu dia a dia e se depara com situações que te dão um estranhamento, que você não sabe o que que é”.

Mata à Venda

Quando até 16 de outubro; seg. à sex., das 10h às 19h; sáb., das 10h às 17h
Onde Galeria Marcelo Guarnieri – Al. Lorena, 1835, São Paulo
Preço Grátis

34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto

Quando Ter., qua., sex. e dom., de 10h às 19h. Qui. e sáb., de 10h às 21h. Até 5/12.
Onde Pavilhão da Bienal, Parque Ibirapuera, portão 3, São Paulo
Preço Gratuito

Por João Perassolo