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Brasileira é enterrada 2 meses após ser abandonada no deserto nos EUA

Caso ainda está sendo investigado nos Estados Unidos

Foto: Reprodução

Dois meses depois de ter sido encontrado na fronteira do México com os Estados Unidos, o corpo da brasileira que morreu após ser abandonada no deserto pelos companheiros de viagem chegou a Vale do Paraíso, em Rondônia.

A enfermeira Lenilda dos Santos foi velada durante cinco horas no ginásio de sua cidade de origem, com cerca de 800 a 1.000 pessoas presentes. O caixão saiu para o enterro por volta das 14h30 (horário local, 15h30 em Brasília), ao som da música “Lei da Vida”, de Sabrina Lopes, rodeado por pessoas segurando balões brancos.

A demora para a liberação do corpo ocorreu porque o caso ainda está sendo investigado nos Estados Unidos. A causa da morte só sairá após o resultado de exames toxicológicos, que podem demorar até 90 dias.

“Foi muita burocracia”, diz Kleber Vilanova, empresário que mora em Columbus, no estado americano de Ohio, e cuidou dos trâmites da repatriação. “Os documentos que estavam com ela ainda não foram liberados, e algumas companhias aéreas exigem isso. O consulado brasileiro ajudou e finalmente conseguimos apostilar tudo e o corpo foi enviado neste fim de semana.”

Os custos do traslado –US$ 11 mil, no total, o equivalente a R$ 60 mil– foram cobertos com a ajuda de uma campanha de financiamento coletivo, para a qual contribuíram pessoas que moram nos dois países, amigos ou não da família. Dentro do Brasil, uma empresa aérea se ofereceu para bancar o transporte de São Paulo para Rondônia.

A suspeita é que a morte dela tenha sido por desidratação, mas o atestado de óbito só será atualizado quando saírem os resultados dos exames.
Lenilda tinha 49 anos e trabalhava na área de enfermagem em Vale do Paraíso. Para pagar dívidas relativas à mensalidade da faculdade de suas duas filhas, resolveu voltar para os EUA, onde já tinha morado no começo dos anos 2000, em busca de um emprego que pagasse melhor.

Em abril deste ano, usou o sistema conhecido como “cai-cai”, entregando-se aos guardas da fronteira, mas acabou sendo deportada. Em setembro, viajou com objetivo de atravessar o deserto sem ser vista, uma modalidade mais perigosa.

Estava acompanhada de três amigos de infância e de um coiote que os levava na travessia. No dia 7 de setembro, enviou mensagens de voz à família de seu celular, dizendo que tinha ficado sozinha porque não aguentava mais caminhar, mas que o grupo voltaria para buscá-la. Enviou também a localização de onde estava, perto da cidade de Deming, no Novo México, e disse que estava com muita sede.

Uma semana depois, na quarta-feira (15), às 16h16, seu corpo foi encontrado, após a família acionar a patrulha de fronteira dos EUA.
Um de seus irmãos, Leci Pereira, que vive no Brasil, disse à Folha que os companheiros de viagem de Lenilda contaram a ele que não aguentaram carregá-la.

A busca foi especialmente difícil porque ela usava roupa camuflada, para não ser identificada pela polícia enquanto atravessava a fronteira. Lenilda enviou à família uma foto em que aparece, logo antes de começar a travessia, ao lado de outras sete pessoas, todas com calças e blusas com a estampa verde musgo, botas e chapéus.

Desaparecimentos durante a travessia entre o México e os EUA são comuns. O deserto chega a ter 35°C com ar seco durante o dia e vento frio à noite, o solo tem pedras e buracos e há também o perigo de encontrar traficantes de drogas e outros criminosos no caminho.

O número de brasileiros detidos na fronteira entre México e EUA bateu recorde nos últimos meses. Segundo dados do Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), foram mais de 47 mil apreensões entre outubro de 2020 e setembro de 2021.

Por Flávia Mantovani