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Cirurgião plástico cobrava até R$ 17 mil para fazer reparo em nariz infeccionado

Alan Landecker é investigado por deformar nariz de pacientes; defesa diz que tema está sob sigilo e que acusação não é verdadeira

Foto: Arquivo pessoal

O cirurgião plástico Alan Landecker cobrava até R$ 17 mil para fazer procedimentos corretivos nos seus pacientes para resolver problemas decorrentes de cirurgias feitas por ele mesmo. O médico atualmente é investigado por deformar o nariz de pacientes.

Um desses casos aconteceu com o médico mineiro Veraldino de Freitas Júnior, 35, que ao todo teve que fazer quatro cirurgias no nariz –as três últimas para tentar reverter o dano causado por uma infecção contraída no primeiro procedimento.

Por duas operações para consertar o estrago, ele pagou R$ 25 mil a Landecker. Pela primeira, ela já tinha pago mais R$ 50 mil para o cirurgião.

Assim como o médico, a assessora de imprensa Paula Oliveira, 35, também contraiu a infecção bacteriana e teve que passar por um segundo procedimento com Landecker cerca de um mês depois da rinoplastia. “Ele me disse que eu teria que transplantar a mucosa da boca para o nariz”, diz ela, que pagou R$ 17 mil pelo retoque. “Ele lucrou em cima da nossa desgraça”, completa Paula.

Landecker é alvo de uma investigação da Polícia Civil de São Paulo por lesão corporal. O Ministério Público e o Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) também apuram as denúncias de um grupo de sete pacientes que ficaram com o nariz deformado após serem operados pelo cirurgião plástico.

Por meio de seus advogados de defesa, Landecker afirmou que “informações envolvendo a relação médico-paciente são sigilosas por lei e não podem ser divulgadas publicamente”. Ele não quis comentar sobre os custos adicionais para reverter as intercorrências.

Os pacientes que denunciaram o médico afirmam que quando o questionaram sobre as deformações resultantes da infecção, Landecker os acusava de terem provocado a contaminação. A mesma resposta foi dada por seus advogados.

“Não são verdadeiras as acusações feitas por alguns ex-pacientes do dr. Alan Landecker, que não seguiram o tratamento proposto ou abandonaram os cuidados e orientações que vinham sendo prestados no tratamento da infecção”, informou em nota enviada na semana passada.

O paciente de Minas Gerais conta que começou a perceber que havia algo de errado com o pós-operatório quando começou a sentir cheiro de carniça dentro de casa. “Procurei um pano para tirar o que eu achei que era um animal morto, mas o cheiro estava em todo lugar. Foi quando percebi que vinha do meu nariz”, conta Freitas Júnior.

No consultório do cirurgião, ele ouviu a explicação de que havia um buraco em seu nariz causado pela rejeição de seu organismo ao ponto. “Ele disse que seria uma cirurgia simples”, afirma sobre o segundo procedimento, que lhe custou R$ 15 mil.

Seis meses após a primeira plástica no nariz, o paciente foi submetido a uma segunda cirurgia em que acusa Landecker de ter tirado parte da cartilagem sem seu conhecimento. “Só fui descobrir meses depois quando passei por uma biópsia com outro médico.”

Antes de mudar de profissional, Freitas Júnior ainda fez uma terceira cirurgia com Landecker que lhe custou mais R$ 10 mil. Dessa vez, havia feridas abertas nos dois lados do nariz e a operação foi feita para fechá-los.

Já Oliveira conta ter ouvido do cirurgião plástico que a infecção bacteriana no nariz recém-operado tinha sido decorrente de seu contato com seu animal de estimação.

O grupo de pacientes também reclama de dificuldade em obter o prontuário médico após as complicações da cirurgia. Em áudio gravado por uma delas, Landecker afirma que o documento só pode ser entregue após análise de seu departamento jurídico.

Indignada, a paciente ameaça chamar a polícia no consultório e acaba indo embora sem o prontuário. “Ele me entregou um prontuário todo forjado para esconder que ele tinha conhecimento da bactéria que tinha infectado outros pacientes também”, diz o paciente Freitas Júnior.

Em nota, o médico afirmou que jamais negou o prontuário à paciente e que foi enviada uma notificação para que ela fornecesse o endereço para receber o documento via motoboy, “o que não foi respondido até hoje”, diz Landecker.

Uma das bactérias identificadas em ao menos dois ex-pacientes é a Mycobacterium abscessus. Da família da tuberculose, ela é muito resistente e come os tecidos do corpo.

A incerteza sobre a origem das infecções fez com que quatro hospitais de São Paulo (Sírio Libanês, Vila Nova Star e São Luiz) suspendessem o cirurgião preventivamente, impedindo ele de realizar novos procedimentos em suas unidades até o fim das investigações. Na sexta (5) o Albert Einstein anunciou que também tomou medida semelhante contra o médico.

No fim de semana, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica em São Paulo (SBCP-SP) emitiu nota a favor do cirurgião plástico Alan Landecker.

Por Rogério Pagnan e Mariana Zylberkan