Fim da máscara pode pôr em xeque esforço coletivo contra Covid – Mais Brasília
FolhaPress

Fim da máscara pode pôr em xeque esforço coletivo contra Covid

Essa é a avaliação de especialistas que veem com preocupação a flexibilização das regras

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Derrubar a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes fechados, como decidiu na última segunda (7/3) a Prefeitura do Rio de Janeiro, pode passar a mensagem de que esforços coletivos para combater o coronavírus não são mais necessários.

E mesmo com o fim da obrigatoriedade em espaços abertos, como ocorreu no estado de São Paulo, o ideal seria aproveitar o momento para conscientizar a população sobre quais estratégias continuam sendo adotadas, como ampliação da testagem, avanço da vacinação em crianças e de reforço e diminuição de aglomerações, o que tampouco foi feito.

Essa é a avaliação de especialistas ouvidos pela reportagem, que veem com preocupação a flexibilização das regras de uso de uma das principais medidas de controle da infecção pelo vírus.

Dois anos após a pandemia da Covid-19 ser oficialmente decretada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), os protocolos de segurança foram muito pouco ou não foram revisados, afirmou o engenheiro e diretor do monitoramento e avaliação de políticas públicas da Prefeitura de Goiânia, Erick Sousa.

“A questão da importância do uso das máscaras é bem endossada, mas algumas outras estratégias como ventilação, monitoramento de CO2 e filtros Hepa [que retêm partículas contaminadas no ar] não foram implementadas”, disse ele, reforçando que, com a retirada de máscaras e sem esses outros cuidados, é quase como “tentar tapar o Sol com uma peneira”.

Para Sousa, que também é doutorando em ciência da saúde na Universidade Federal de Goiás, o uso de máscaras para se proteger da infecção é análogo ao uso de guarda-chuva. “Se está chovendo, vou sair com guarda-chuva, para evitar molhar, mas também vou colocar um casaco, para impedir o frio e o vento e não pegar pneumonia. A máscara é como o guarda-chuva. A vacinação é como o casaco, ele mantém meu corpo protegido. Preciso igualmente dos dois.”

A pesquisadora Lorena Barberia, professora do departamento de ciência política da USP, avalia que há uma falha ao anunciar o fim da exigência da máscara em espaços abertos e, nas próximas duas semanas, a possibilidade de retirada em locais fechados, como fez o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), nesta quarta (9/3).

“Não há a retirada [da exigência da máscara] em espaços abertos para conscientizar sobre o risco ou sobre ventilação, mas para fazer uma alusão de que hoje já existe um controle da pandemia, equiparando ter controle a usar ou não máscaras. E isso é uma confusão”, afirmou Barberia.

Barberia lembrou ainda que o uso de máscara é uma medida de relativo baixo custo para saúde pública, uma vez que ampliar testagem –ou ofertar testes gratuitos– e disponibilizar medicamentos promissores como pílulas antivirais é muito mais difícil em um país como o Brasil. “Tivemos uma adesão massiva do uso de máscaras desde abril de 2020, mesmo que este uso estivesse em queda, era algo que todos faziam, como usar cinto de segurança. É uma pena abrir mão disso sem uma campanha de conscientização.”

A visão de ser necessário valorizar no debate público a soma de medidas, e não a retirada, é compartilhada pela biomédica Mellanie Fontes-Dutra, professora da Unisinos. “Temos dados de que somente o distanciamento físico sem máscara em ambientes abertos pode trazer o mesmo risco que estar em um ambiente fechado. A máscara continua muito importante”, afirma.

Para Barberia, o uso de máscaras tem um caráter simbólico de igualdade, e a retirada quebra isso. “Agora, fica a mensagem que a máscara é uma escolha individual se você quer ou não usar, e essa quebra, em uma sociedade com a desigualdade de acessos como a nossa, só coloca as pessoas vulneráveis em uma situação pior, quando deveríamos estar cuidando uns dos outros, com solidariedade.”

O epidemiologista Leonardo Bastos, responsável pelo boletim InfoGripe da Fiocruz, pondera que a proteção coletiva irá sofrer o maior impacto, uma vez que quem optava por não usar máscaras vai continuar não usando, mas há um contingente de pessoas que se sentiam inibidas em sair sem e, portanto, usavam para cumprir medidas obrigatórias.

“As pessoas vão entender, com essas medidas, que as máscaras não são mais necessárias, e não é isso que está sendo dito. Para o coletivo, isso vai ter um efeito direto, principalmente em grupos em que a cobertura vacinal ainda não está boa, como em crianças, ou nas pessoas imunocomprometidas”, disse ele.

Apesar de defender que máscaras não precisam ser usadas em ambientes abertos, a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo vê como precipitada a desobrigação do uso em espaços fechados. “Você fragiliza uma medida tão potente e coloca em risco as demais medidas não farmacológicas”, afirmou.

“No Brasil, tivemos uma boa adesão à vacinação, e os esforços de saúde pública deveriam priorizar a cobertura vacinal em crianças e a dose de reforço, e não a flexibilização de máscaras em espaços fechados”, acrescentou Dalcolmo.

Por Ana Bottallo