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Fundação Palmares ignora celebrações da Consciência Negra na terra de Zumbi

Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL), promove uma extensão programação especial em homenagem à data

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. Foto: Reprodução/ Fundação Palmares

Ao se completarem 50 anos dos primeiros atos em comemoração ao 20 de novembro como Dia da Consciência Negra, a histórica Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL), promove uma extensão programação especial em homenagem à data e a Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares.

No local, há um parque memorial visitado por pessoas de todo o mundo. O dono desse parque é a Fundação Cultural Palmares, ligado ao Ministério do Turismo, mas a entidade decidiu mudar a atitude observada em outros anos. Ignora a data e não realiza nem apoia qualquer evento no município alagoano, a 80 km de Maceió.

“Quando era o mês da Consciência Negra, a fundação sempre trazia atrações e ajudava o município com ações e grupos culturais. Neste ano não foi dado nada, apenas o parque vai estar aberto”, diz a secretária de Cultura de União dos Palmares, Elizabete de Oliveira Silva, citando que o órgão vem apenas realizando a manutenção de rotina para o parque ficar aberto.

Criado em 2007, no alto da Serra da Barriga (que ocupa uma área de 27,92 km²), o parque recria o ambiente da República dos Palmares. Foi lá o maior e mais organizado refúgio de negros das Américas durante o período escravocrata, abrigando também índios e brancos.

O local reconstitui as mais significativas edificações do Quilombo dos Palmares e teve Zumbi dos Palmares como seu último líder. Ele foi morto em 20 de novembro de 1695 -por isso a homenagem do Dia da Consciência Negra. Zumbi está inscrito no livro oficial de heróis da pátria desde 1996. Sua esposa, Dandara, também.

Importância da data

O turismo étnico na região, além da importância histórica, é um dos motores da economia de União dos Palmares, por isso a cidade se esforça para a data não passar batida.

No ano passado, devido à pandemia, as celebrações foram restritas e limitadas a 300 pessoas. Em 2021, sem restrições, as comemorações tentam ser um marco.

“Acredito que as pessoas, nossos entes queridos, estão com sede de estar juntos. Como a gente viu que a fundação não ia participar dos eventos da semana do dia 20, procuramos parceiros e conseguimos: vamos fazer uma das melhores festas que já tivemos aqui, talvez nem sintamos tanta falta [da Palmares]”, afirma Elizabete.

Para aumentar o fluxo de visitantes, este ano a prefeitura criou um projeto com atração cultural aos domingos, para que as pessoas vejam o espetáculo da natureza e o pôr do sol no local. “No último domingo foram 800 pessoas, um sucesso”, diz.

Programação maior

Sem atos oficiais do governo federal, coube à prefeitura, ao estado e ao próprio movimento negro comandar uma grande programação em celebração ao Dia da Consciência Negra.

As celebrações, por sinal, começaram bem antes. Há cinco anos, o grupo negro Anajô comanda o projeto “Vamos Subir a Serra”. Neste ano, até como uma resposta ao descaso da Fundação Palmares à luta negra, ele teve sua programação ampliada de cinco para sete dias.

“Nós fazemos essa ação dede 2017 como uma forma de participação da sociedade civil organizada. Neste ano estamos com uma programação extensa e bonita”, afirma a jornalista Valdice Gomes, integrante do Anajô e coordenadora do projeto.

Para ela, nada justifica o órgão federal criado para gerir as políticas afirmativas e inclusivas de negros e quilombolas esteja fora dessa data.

“É lamentável e é um descaso com a Serra da Barriga e com a história do 20 de novembro, com o Dia da Consciência Negra. Como conhecemos o gestor que está na Palmares [Sergio Camargo], não é uma surpresa para o movimento negro. É mais uma demonstração de que ele não se preocupa com aquilo que é função da autarquia”, diz.

O meio século de atos da data existe porque, em 1971, um grupo de jovens negros se reuniu no centro de Porto Alegre para pesquisar a luta dos seus antepassados e questionar a legitimidade do 13 de maio (data da assinatura da Lei Áurea) como referência de celebração do povo negro.

Em 2011, é oficialmente criado o Dia da Consciência Negra. Um projeto aprovado no Senado torna a data como feriado nacional, mas ainda não foi implementado.

“Não é uma data de governo”, diz ex-presidente

Para o ex-presidente da Fundação Palmares Erivaldo Silva, o Dia da Consciência Negra é um marco para os movimentos negros e vai além das fronteiras do Brasil.

“Essa é a data maior do movimento negro no Brasil, diria até da América Latina, porque a Serra da Barriga foi tombada pelo patrimônio histórico do Mercosul. Então não é uma festa só do Brasil. E ela é um dia de reflexão e comemoração pelo herói nacional Zumbi dos Palmares”, diz.

Ele afirma que foi a partir da retomada da Serra da Barriga, na década de 1980, que a região cresceu em importância, sendo transformada em patrimônio histórico brasileiro nos anos 1990.

“A gente iria transformar a serra em patrimônio da humanidade em 2018, mas infelizmente entrou esse governo, que não tem nenhum apreço pela cultura afro”, diz.

Silva afirma ainda que a atual gestão não representa o movimento negro e tem atuado no sentido contrário do que prega a fundação em sua essência.

Procurada pela reportagem na quarta e na sexta-feira (19), a Fundação Palmares não deu resposta sobre o porquê do abandono à data histórica.

O atual presidente da fundação, Sergio Camargo, já demonstrou não reconhecer Zumbi como um herói negro e fez até ofensas, no ano passado, ao maior líder negro do país, dizendo que ele é uma “fraude”.

Por Carlos Madeiro