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Irmã critica banalização da imagem de Marielle Franco e contagem de dias da morte

Legado da vereadora do Psol assassinada em 2018 é resgatado em HQ, série e livro no Julho das Pretas

Anielle Franco, irmã de Marielle
Anielle Franco, diretora do Instituto Marielle Franco - Bléia Campos/Divulgação

“Não houve na vida da minha irmã um aniversário que tenha passado em branco”, lembra Anielle Franco, 37, diretora do instituto que leva este nome que simboliza tantas lutas de mulheres pretas como elas duas: Marielle Franco.

“Na infância, tinha muito aquela coisa da lambada, a sainha rodada, de lycra”, lembra a caçula de Marinete e Antonio. “Quando a Mari começa a ser garota Furacão 2000, a lambada perde um pouco pro funk.”

Marielle foi mãe, filha, irmã, dançarina de funk, socióloga, vereadora do PSOL-RJ e aniversariante pela última vez no dia 27 de julho de 2017, quando comemorou seus 39 anos na Pedra do Sal, reduto do samba na zona portuária carioca. Quase oito meses depois, ela foi assassinada numa emboscada a poucos quilômetros dali, um crime com mandante até hoje desconhecido.

No próximo dia 27, a menina que dançava a lambada “Chorando se foi” no Complexo da Maré celebraria seus 42 anos como ícone para outras mulheres negras e LGBTQI+ –quando foi morta, ela estava casada com a hoje vereadora Monica Benicio (PSOL-RJ). Estrela em ascensão na esquerda, em 2016 Marielle foi a segunda mulher mais votada no Brasil para uma Câmara Municipal.

Festejar é preciso, diz Anielle. Este mês será o Julho das Pretas, um calendário que engloba também o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha (25) e uma série de estreias promovidas pelo Instituto Marielle Franco.

A primeira acontece nesta quarta (7/7): a websérie “Para Onde Vamos”, exibida por Canal Brasil e Globo Play. Contará a história de cinco ativistas negras, a irmã Franco mais nova inclusa. Uma HQ sobre Marielle e o livro “A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras” serão os outros lançamentos julinos.

Exaltar a vida em vez de remoer a perda virou um mote para Anielle. “Me incomoda a contagem de dias da morte de Marielle. Prefiro contar os dias em que ela esteve viva comigo. Entendo que é a maneira para algumas pessoas de pedir justiça, mas não consigo caminhar desse lado. Prefiro falar sobre um ano e três meses de mandato [de Marielle], 27 projetos de lei apresentados, 39 anos de vidas bem vividos.”

Também a perturba ver a figura da irmã transformada em cultura pop por quem muitas vezes sequer tem interesse real em sua história, mas veste uma camiseta com seu rosto estampado.

“Me preocupa a banalização de quem usa sem de fato saber quem é a Mari”, diz. “A imagem dela sendo banalizada até mesmo entre políticos, ou gente que faz pra vender, pra conseguir uma graninha extra, sem de fato conhecer sua história.”

Anielle conta que a própria irmã se inquietava com a possibilidade de heróis dos direitos civis serem reduzidos a acessório fashion.

Certa vez, a caçula chegou em casa com uma camisa que comprou na feira, uma foto de Martin Luther King no peito. Marielle só sossegou quando a irmã a convenceu de que conhecia a trajetória do pastor americano. “Ela disse: ‘Muito bem, não pode usar sem saber o que representou”.

Em 2020, com a pandemia da Covid-19 já em curso, Anielle idealizou as Escolas Marielles justamente para que mulheres negras saibam o que sua história representa. Serão centros de formação política, por ora em formato virtual, afirma.

A feminista Angela Davis seria a primeira palestrante, mas esse projeto foi adiado por conta da crise sanitária. A pandemia acumula vários danos colaterais para a população negra, que podem ser sintetizados assim: piorou a desigualdade racial que sempre escoltou o Brasil piorou. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo em março mostrou que brancos eram quase o dobro dos negros entre vacinados.

Anielle dá um exemplo: muitos pardos e pretos, que são maioria em favelas, não conseguem atestados com a mesma facilidade quando a imunização exige prova médica de que a pessoa pertence a um grupo de risco. Percebeu isso quando foi vacinar a filha Eloah, que completa um ano em julho, contra a febre amarela.

“No posto tinha uma lactante que não conseguiu se vacinar [por não ter atestado]. Não tinha uma médica que a acompanhasse. Aí falaram pra ela que ia ter que marcar uma consulta pro dia tal, e só tinha data um mês e meio pra frente.”

Anielle conta que esteve com o ex-presidente Lula no mês passado, quando o petista passou pelo Rio, e lhe disse que “não dá para vencer o bolsonarismo, todo o ódio que está aí”, sem falar de “quem está na ponta de lança”, as minorias.

Ela diz “discordar totalmente” de uma linha que ganha força no campo progressista, de que é hora de recuar um pouco e não trazer as pautas identitárias ao palanque em 2022. Seria uma estratégia para não afugentar um eleitorado mais conservador e refratário a bandeiras da diversidade.

“É um risco, mas aí também é isso, a vida é feita de riscos”, diz a diretora do Instituto Marielle Franco. “Ficar em cima do muro é que não dá. Estamos precisando de pessoas que se posicionem.”

Sua irmã nunca deixou de mostrar de que lado estava, e é esse legado que lhe cabe potencializar, diz.
Dias de luta, dias de glória. Todo dia 27 de julho, era a mesma coisa: a “muito festeira” Marielle precisava dar uma festa. No almoço de aniversário não podia faltar feijão feito na hora pela mãe, e também iam bem farofa, macarrão ao alho e óleo e carne assada.

Cantava parabéns com o “famoso bolo de laranja da Marinete”. Feliz aniversário, Marielle.

Matéria escrita por Anna Virginia Balloussier