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Pesquisa mostra melhores e piores bairros para crianças em São Paulo; saiba quais são

Levantamento mapeou regiões a partir de indicadores como quantidade de escolas e boletins de ocorrência

Foto: Reprodução

Penelope, 13, gosta de jogar futebol com os amigos na praça Petrolândia, em frente à casa dela, na Vila Jaguara. Os irmãos Gabriel, 10, e Guilherme, 6, adoram o pula-pula instalado vez ou outra em frente ao prédio onde moram, na Sé.

De acordo com um ranking realizado pela consultoria Urbit, Penelope vive no melhor distrito para crianças em São Paulo. Gabriel e Guilherme vivem no pior.

O indicador levou em consideração variáveis como proporção de crianças de 0 a 14 anos em escolas, acesso a parques, qualidade de calçadas (aquelas com largura maior que 2,5 m e declividade média de 6%), cobertura vegetal e boletins de ocorrência de roubos e furtos de celulares a cada mil habitantes.

Penélope é filha da artesã Jaqueline Arcanjo, 43, que vive no Jaguara, zona oeste, desde que nasceu. Ali, ela acompanhou as mudanças do bairro e afirma que viver na região é bem tranquilo. A casa está próxima a praças e ao parque Vila dos Remédios, apelidado de “matão” pelos moradores do entorno.

“Vez ou outra tem assalto, mas sempre foi tranquilo. Não é um bairro com música e nem de bares, tem bastante movimento de crianças”, diz.

Jaqueline afirma que alguns adolescentes usam o parque à noite para fumar maconha. “Eles vêm, fumam e vão embora, não incomodam e não mexem com ninguém.”

Com uma praça em frente a sua casa que conta com brinquedos, quadra de basquete e de futebol, ela diz que sua filha brinca ali desde pequena. Hoje, Penelope gosta de jogar futebol com os meninos da vizinhança.

A praça em frente a sua casa é limpa e tem brinquedos conservados. Penélope afirma que há poucos meses o parque foi revitalizado com poda das árvores e manutenção na grama.

Além disso, pouco antes da pandemia, os brinquedos foram trocados –saíram os de madeira e chegaram os com peças de ferro. “Temos uma vizinha que tá pegando firme com a limpeza da praça e a gente também ajuda”, conta a mãe.

O distanciamento social, para Penélope, não foi tão duro. “As crianças ficavam em casa e os pais mandavam para a praça”, diz Jaqueline. “Algumas mães da escola dela relataram que os filhos tiveram depressão e ansiedade, mas como aqui é uma área livre, ela não sentiu tanto o impacto.”

A praça na qual ela brinca passou a ser frequentada até por moradores de outras regiões, que buscaram refúgio em locais abertos, uma vez que os parques ficaram fechados durante longos períodos na pandemia de Covid.

As áreas no interior do chamado centro expandido, ou próximas a ele, foram as mais bem ranqueadas no indicador.

Na zona sul, Moema é considerada o sexto melhor distrito. Bem próximo ao parque Ibirapuera, no Jardim Luzitânia, vive o economista Artur Ignarra com a administradora Daniella Pizzo e seus filhos, Isabella, 13, e Felipe, 8.

No início, o casal carioca vivia no Itaim Bibi, zona oeste –que, aliás, está mal ranqueado na lista dos melhores distritos para crianças e ocupa a 65ª posição (ao todo, a cidade reúne 96 distritos).

Outra região mal ranqueada foi, por exemplo, a Santa Ifigênia, na República, um bairro central e polo de emprego –além disso, a área tem um baixo número de crianças e possui uma oferta reduzida de escolas.

Em 2008, com a primogênita recém-nascida, Artur e Daniella sofriam com o barulho da construção do gigante prédio na Faria Lima, que abriga o escritório do Google. A escolha pelo novo lar surgiu da vontade de encontrar um bairro “sem nenhuma perspectiva de construção de prédio”.

Por isso, o endereço escolhido é localizado próximo ao parque Ibirapuera. Pizzo afirma que a região fica próxima ao trabalho dos pais e da escola da crianças. Além disso, permite que eles vivam sem ter que se locomover de carro e tenham liberdade para andar de bicicleta.

“Em casa é obrigatório andar de bicicleta, desde os quatro anos eles já andavam sem rodinha”, diz o pai, que afirma que os filhos não passam mais de 30 minutos dentro do carro.

No último ano, eles contam que notaram um maior número de roubos de carros e celulares. “Consideramos a região segura, mas estamos mais assustados”, diz o pai.
Na pandemia, assim como a filha de Jaqueline no Jaguara, a solução da família em Moema foi também frequentar praças da região e andar de bicicleta.

Na Sé, a pior região da cidade, Meire Coelho, 29, costuma levar seus filhos pequenos até a praça em frente a sua casa. Guilherme, 6, reclama que ali não tem balanço. Mas sua mãe diz que, em dias de calor, o local costuma ficar cheio.

O problema, segundo ela, é no dia seguinte às brincadeiras: a praça fica suja. A região em que ela vive ficou mal ranqueada por falta de parques, calçadas ruins, poucas escolas, arborização escasssa e alto número de boletins de ocorrência –no último quesito, a região ficou atrás apenas da Barra Funda.

O ranking, porém, não leva em consideração a posição relativa do bairro na cidade e nem suas condições de acessar outros locais. Por exemplo, Meire afirma que, apesar de morar na Sé, não costuma ficar muito por ali. “Você passa e fica horrorizado”, diz sobre o número de roubos na região central.

Os moradores de Marsilac, que ocupa o sexto pior lugar no ranking para crianças, enfrentam uma grande dificuldade para acessar outros bairros.

O distrito, localizado no extremo sul de São Paulo, sofre com falta de infraestrutura para crianças, problemas de transporte, saneamento básico e pouco sinal de telefonia.

“A gente tem que andar na ponta do pé para procurar sinal no telefone”, diz Katia da Silva Prado, que mora na região desde criança e tem três filhos, Dener, 16, Agatha 12 e Isaac, 2. Seu filho mais velho, por exemplo, após a escola, faz um curso técnico, leva cerca de duas horas durante o trajeto.

Diretor da associação SOS Marsilac, Roberto Tiago Denegro considera que a região proporciona uma falta de perspectiva para jovens. Ele diz que, enquanto os colégios estavam fechados em meio à pandemia, os alunos sofriam com a falta de acesso à internet.

Antes da Covid, no entanto, o problema que mais afetava os estudantes era dificuldade de locomoção –como muitas ruas não são pavimentadas, quando chove é comum que ônibus não acesse a região para levar as crianças. “O normal já é dramático, já é complicado demais, a pandemia só foi mais um problema”, diz.

Por Isabella Menon