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PUC-SP, 75, sai da crise, mas perde 37% dos alunos em uma década

Faltou visão de futuro, diz reitora, que agora vê espaço para expansão e diversificação de cursos

Foto: Divulgação

Com trajetória marcada por crises e resistência política, a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) chega aos 75 anos em melhor situação financeira, mas consideravelmente menor do que na última década.

Em dez anos, a universidade ligada à Arquidiocese de São Paulo perdeu 37% dos estudantes de graduação, segundo dados do censo de educação superior e da instituição.
De 16.236, em 2012, passou para 10.300 em 2021.

Também na pós-graduação houve recuo, tanto no mestrado como no doutorado, que passaram de 3.440 estudantes em 2016 para 2.857 em 2021, como nas especializações, que foram de 3.113 para 2.904.

A reitora Maria Amalia Andery atribui o enxugamento na graduação ao fechamento de cursos que foram abertos, diz, sem planejamento estratégico, e à baixa procura, nacional, pela área de licenciatura, que a universidade acha importante ainda assim manter.

O mesmo problema se repete, de forma pontual, em algumas graduações, como ciências atuariais. A política da universidade no momento, segundo a reitora, não é fechar, mas modernizar cursos como esse e torná-los mais atrativos.

Com forte tradição em áreas como direito e psicologia, a PUC-SP pretende avançar na diversificação do leque de cursos com uma nova graduação em arquitetura e urbanismo.

Ela se somará a outras abertas recentemente, como as de ciência de dados e jogos digitais. “Não seremos uma universidade de massas, mas há espaço para crescimento.”

O movimento corrige a rota de expansão das últimas duas décadas quando, nas palavras da reitora, fez-se mais do mesmo. Ela dá o exemplo do curso de administração.

“Abrimos um em cada campus, e isso acabou gerando fechamentos [por falta de demanda]”, diz. “Minha impressão é que a universidade não tinha um plano de futuro.”

Na contramão desse movimento de expansão que ocorreu em meio a uma grave crise financeira, nos últimos anos o campus de Barueri, na Grande SP, foi fechado, e o de Santana, na zona norte, perderá o único curso que restou, com sua transferência para o campus Ipiranga, na zona sul.

O encerramento marca uma nova fase da universidade, que quase fechou as portas em 2006 em meio ao crescimento acelerado da dívida. Para financiar os débitos, bancos exigiram o fim do déficit mensal de R$ 4,3 milhões (equivalentes a cerca de R$ 8,8 milhões em valores corrigidos).

Após demitir quase um terço do corpo docente e reestruturar a dívida, entre outras medidas, a universidade tem encerrado o ano com superávit, o que permite um respiro.

A crise, porém, deixou marcas ainda presentes. Mudanças no regime de trabalho feitas à época, com uma maior carga de aulas, são citadas por professores como obstáculos para a dedicação à pesquisa.

Na avaliação mais recente da Capes, agência de fomento à pós-graduação ligada ao Ministério da Educação, só o programa de serviço social teve nota máxima, 7. Nenhum tirou 6, a segunda maior nota.

Andery avalia que parte da explicação está na cultura dos cursos de humanas da PUC-SP, que privilegia publicação em livros às em periódicos acadêmicos, valorizada pela Capes.

“Quanto mais a Capes passou a valorizar publicação em periódicos com certo tipo avaliação e fator de impacto, a PUC-SP foi perdendo espaço nas avaliações.”

Ela diz considerar importante a publicação em periódicos e que ações como editais de financiamento internos tentam estimular mais isso.

Apesar da dificuldade na pós, a PUC-SP ainda goza de prestígio acadêmico, tanto por sua produção intelectual como por sua tradição.

É a segunda universidade particular brasileira mais bem posicionada no ranking internacional QS e é reconhecida por pares de outras instituições, em grande parte pela sua história.

“A PUC tem uma história de luta pela defesa dos ideais acadêmicos e é um modelo de instituição confessional”, diz o reitor da USP, Vahan Agopyan. “Uma instituição dessas incomoda quem defende o negacionismo, quem não acredita na ciência, quem considera as opiniões pessoais sem embasamento como coisas lógicas.”

A diversidade é outra marca sua. Ela abriga em seu corpo docente tanto o ensaísta Luiz Felipe Pondé como o militante e político do PSOL Guilherme Boulos, ambos colunistas da Folha de S.Paulo.

“A PUC-SP é uma mistura de uma instituição de 2.000 anos -a Igreja Católica- com a busca de entendimento das tensões contemporâneas”, diz Pondé. “Isso dá a ela a estabilidade de quem guarda um certo ceticismo de fundo, fruto da experiência ancestral, para com as modas do mundo ao lado do enfrentamento da realidade histórica imediata.”

Boulos lembra o passado de resistência da instituição.

“Não dá para falar dos 75 anos da PUC-SP, ainda mais nos dias de hoje, sem lembrar da organização dos estudantes em 1977 contra a ditadura, que levou à tomada do campus por policiais liderados por Erasmo Dias”, diz Boulos. “A PUC não se curvou à ditadura e até hoje mantém um ambiente de diversidade política e intelectual, bem raro fora das universidades públicas.”

Docente do direito e vice-presidente da comissão interamericana de direitos humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos), Flávia Piovesan cita também o passado de resistência e acrescenta outro motivo para a comemoração: o clima da instituição.

“A essência da PUC é o humanismo e o compromisso com a transformação social, a pluralidade que é a marca da nossa universidade tão vibrante e a alegria e o acolhimento” afirma ele. “Ninguém é triste na PUC.”

Eleições de 2022

Em meio aos ataques do presidente Jair Bolsonaro às instituições, com questionamentos à legitimidade das eleições, a reitora da PUC-SP, Maria Amalia Andery, avalia que o pleito de 2022 é crucial para o Brasil voltar a uma trajetória de desenvolvimento.

“O Brasil vive um momento muito sério pela questão social e delicado pela política. Não é possível acreditar que as instituições corram os riscos que estão correndo”, diz.

Psicóloga, ela vê no país uma grave perda de freio. “No mundo civilizado, a gente aprende a lutar contra o que se chama de instinto. Se alguém pisar no seu pé, seu instinto é pisar no da pessoa, mas o mundo civilizado não pode ser assim.”

Apesar disso, ela se diz otimista. “As eleições de 2022 podem ajudar a fazer um retorno ao curso que o Brasil seguiu desde a redemocratização, com melhora pelo menos em questões como escolaridade, expectativa de vida e, em alguns momentos, na desigualdade.”

O governo Bolsonaro impactou diretamente a PUC com sua política para a educação. A universidade perdeu cerca de 30% de suas bolsas de pós-graduação, diz Andery.

Ao projetar o futuro, a reitora avalia que, com o aprendizado adquirido na pandemia, novas tecnologias devem ser incorporadas, mas o ensino seguirá a ser essencialmente presencial, embora não só.

É possível, por exemplo, replicar iniciativas de cursos que reservam parte do tempo para que o aluno resolva projetos de forma autônoma.

“A universidade é um lugar de sociabilidade, de construção de consciência, e ela precisa ser presencial, mas não exclusivamente presencial.”

Por Angela Pinho e Daniel Mariani