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Registro de ação no Salgueiro indica que armas de PMs não foram apreendidas

Técnicos da Polícia Civil fizeram a perícia do local onde os corpos foram achados

Foto: Reprodução

As armas utilizadas por policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) durante a operação deste fim de semana no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, ainda não foram apreendidas pela Polícia Civil, indica o RO (Registro de Ocorrência) de oito mortes ocorridas na comunidade. O documento foi obtido pelo UOL.

Segundo o documento, lavrado pela DHNSG (Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí) no fim da manhã dessa segunda-feira (22/11), foram realizadas diversas diligências após moradores da comunidade resgatarem ao menos oito corpos de um mangue da região, mas a apreensão das armas não está entre elas.

Técnicos da Polícia Civil fizeram a perícia do local onde os corpos foram achados, recolheram 25 estojos de munição de fuzil calibre.762, 12 estojos e um cartucho de fuzil .556. Também foram encontrados quatro estojos de calibre .9mm, utilizado em pistolas das polícias – até 2019 essa munição era de uso restrito, mas um decreto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) liberou a compra por civis. Armas, no entanto, não foram encontradas.

Em nota a Polícia Civil afirmou que a DHNSG “enviou um ofício à Polícia Militar solicitando os nomes dos agentes que participaram da ação e apreensão das armas para exames periciais”.

A equipe da DHNSG foi acionada às 8h, após as imagens dos próprios moradores do Complexo do Salgueiro retirando os corpos dos mortos do mangue ganharem repercussão na imprensa e nas redes sociais. O Ministério Público também abriu uma investigação independente sobre as mortes ocorridas durante a operação policial.

Segundo levantamento do Geni (Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos), que reúne pesquisadores da UFF (Universidade Federal Fluminense), o Complexo do Salgueiro tem um histórico de violência policial: desde 2007, a região foi alvo de 205 operações policiais, com um saldo de 80 mortos – os dados vão até o fim de outubro deste ano. O Geni registra ainda outras nove operações classificadas como chacinas (com três ou mais civis mortos) desde 2007, cinco apenas em 2021.

Segundo os moradores, os homens foram mortos durante uma ação do Bope no último domingo. Os policiais foram à comunidade porque supostamente havia a informação de que um dos responsáveis pelo assassinato do sargento Leandro Silva – ele foi baleado quando criminosos atacaram uma guarnição do 7º BPM (São Gonçalo) perto da área de mangue na comunidade.

Policiais não foram identificados

Segundo o RO, parentes das vítimas identificaram sete dos oito corpos ainda durante as diligências na comunidade. Já a cena do crime, segundo o relato policia, foi desfeita em razão da remoção dos corpos pelos moradores e pelo trânsito de pessoas, o que pode prejudicar a investigação.

Os nomes dos policiais que participaram da ação também não foram identificados.

Isso ocorre porque o inquérito tem uma circunstância pouco usual: normalmente são os próprios policiais que vão à delegacia registrar casos de mortes por intervenção de agentes do Estado. Como isso não ocorreu no Salgueiro, os investigadores da Polícia Civil terão primeiramente que identificar os policiais envolvidos nos homicídios, para só então apurar se houve prática de crimes pelos PMs.

Em nota, a Polícia Civil informou que está recolhendo depoimentos e irá ouvir outras testemunhas ao longo da investigação, mas não divulgou nomes. Além disso, a corporação aguarda os laudos de necropsia dos mortos.

PM não fez varredura após operação

O porta-voz da PM, o tenente-coronel Ivan Blaz, disse ao UOL que, durante a ação, suspeitos de serem traficantes se refugiaram na área da mata e, após cessarem os supostos confrontos, não foi feita uma varredura no local devido à complexidade da região.

Segundo Blaz, houve uma ocupação na quinta-feira (18/11) na região e foram registrados confrontos durante três dias. De acordo com ele, a operação foi informada ao Ministério Público e tinha como objetivo combater a criminalidade.

Segundo a PM, foram apreendidos na ação duas pistolas, 14 munições calibre 9 milímetros, 56 munições de fuzil calibre 762, cinco carregadores (dois para fuzil e três para pistola), um uniforme camuflado, 813 tabletes de maconha, 3.734 sacolés de pó branco e 3.760 sacolés de material assemelhado ao crack. A ocorrência foi encaminhada para a delegacia da área.

PMs de batalhão do sargento morto fizeram festa

Moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, relatam que policiais militares do 7º BPM fizeram festa em uma piscina a cerca de 500 metros de onde foram encontrados corpos em um mangue na manhã dessa segunda (22).

A festa teria acontecido na noite de sábado (20/11) e entre a noite de domingo (21/11) e a madrugada desta segunda (22/11), ou seja, antes e depois da chacina -que aconteceu no início da noite de domingo.

Os relatos dão conta de que um grupo de ao menos 20 policiais militares entrou no Piscina’s Bar na tarde de sábado, e ficou até as 22h. No domingo, por volta das 18h, o grupo voltou para a piscina e ficou até a madrugada.

Dentro do estabelecimento, que estava fechado desde a última invasão -também por PMs, segundo moradores -há inscrições que fazem menção a dois grupos milicianos diferentes, bonde do Ecko e do Tandera, além de uma menção à facção criminosa Terceiro Comando Puro.

Por Igor Mello