Varíola dos macacos pode causar complicações raras em pacientes

Doença causa quadros sem gravidade para a saúde a longo prazo

A varíola dos macacos, responsável atuamente por um surto de preocupação global, normalmente causa quadros sem gravidade para a saúde a longo prazo. No entanto, pesquisas e relatos médicos já constataram que a doença esteve associada a complicações como problemas na visão e encefalite -inflamação do cérebro causada por uma infecção.

“Os casos que podem levar a cegueira e inoculação do vírus no olho não acontecem em todo mundo. Mas, de todas as sequelas da varíola dos macacos, talvez seja a mais comum”, afirma Clarissa Damaso, virologista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e assessora do comitê da OMS (Organização Mundial da Saúde) para pesquisa com vírus da varíola.

Embora os dados sejam escassos, estudos já observaram diferentes tipos de complicações oculares em pessoas com a doença causada por monkeypox, como o vírus é conhecido. Um levantamento concluiu que a conjuntivite, a inflamação de uma membrana no olho, foi reportada em 23% de pacientes infectados por varíola dos macacos entre 2010 e 2013 no Congo.

Os pesquisadores observaram que a maior parte das pessoas com conjuntivite durante a infecção eram crianças com menos de dez anos. Além disso, a complicação foi mais presente nos menores que apresentaram outros sintomas, como náuseas, dor de garganta e sensibilidade à luz.

“Os casos de varíola dos macacos com conjuntivite correm risco de cicatrizes, que podem causar a cegueira”, afirmam os pesquisadores no levantamento.

Outra pesquisa já observou os casos de cegueira decorrentes da varíola dos macacos. O estudo analisou 338 pacientes no Zaire -como era chamada a República Democrática do Congo- entre 1981 a 1986. Desses, 245 foram infectados diretamente por animais e 95 tiveram transmissão entre humanos.

O levantamento concluiu que sequelas mais graves, como cegueira de um ou dos dois olhos, foram observadas em 10% dos infectados por animais. Para aqueles que tiveram a transmissão por humanos, a taxa foi de 5%.

Damaso explica que os problemas oculares podem ocorrer quando a pessoa toca em alguma lesão corporal causada pela varíola dos macacos e depois leva a mão para o olho sem antes higienizar.

“Quando a ferida vai secando, ela começa a coçar. Então a pessoa coça e esquece depois de lavar a mão”, resume.

Esse tipo de complicação também já é relatado em casos de outros vírus da mesma família do monkeypox, como o patógeno que causa a varíola comum. A situação faz com que, no laboratório da UFRJ que em que Damaso atua, uma regra tenha sido instaurada: “Não colocar a mão no olho de maneira nenhuma”, conta a virologista, recomendando que pacientes diagnosticados com varíola dos macacos sigam a recomendação.

Encefalite Outra complicação associada à varíola dos macacos em estudos é a encefalite, uma inflamação do cérebro e do encéfalo (tronco cerebral) causada por uma infecção.

No caso da varíola dos macacos, há pouquíssimos relatos do desenvolvimento de encefalite mediante a infecção viral. Um deles foi de um surto de 2003 ocorrido nos Estados Unidos. Pesquisadores observaram o caso de uma família -dois adultos e uma criança- onde todos foram infectados por monkeypox. Os adultos desenvolveram os sintomas mais comuns, como as lesões na pele, mas o quadro da criança evoluiu até a encefalite.

Quadros mais preocupantes dessa complicação causada pela varíola dos macacos são raros e atinge basicamente crianças, um grupo já reconhecido como de risco para desenvolver quadros graves da doença. Outras pessoas sujeitas a evoluções mais críticas são grávidas, imunossuprimidos, indivíduos com comorbidades e não vacinados.

Marzia Puccioni, professora da Escola de Medicina e Cirurgia da Unirio e do programa de pós-graduação em doenças infecciosas e parasitárias da UFRJ, afirma que é importante estar alerta aos sinais da encefalite em crianças. O quadro envolve principalmente sonolência, crise compulsiva, confusão mental, déficit motor e dor de cabeça muito intensa.

“Os pais têm que ficar muito atentos”, afirma Puccioni. Ela também aponta para a necessidade de pediatras observarem com maior cuidado o desenvolvimento do problema de saúde. Segundo ela, muitas causas de encefalite deixam de ser investigadas adequadamente.

A encefalite em decorrência da varíola dos macacos ainda não foi descrita nesse surto, diz a pesquisadora.

“É raro, porém temos que estar atentos. Pode acontecer, como já ocorreu nos surtos prévios”, afirma Puccioni.

Por Samuel Fernandes 

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