Jovens de 16 e 19 anos denunciam agressões de policiais militares em São Sebastião

Caso ocorreu na madrugada de quarta-feira (22/12), por volta das 2h, no bairro Morro da Cruz

Um adolescente de 16 anos e um jovem de 19 anos, moradores de São Sebastião, no Distrito Federal, denunciam que sofreram agressões de policiais militares. O caso ocorreu na madrugada de quarta-feira (22/12), por volta das 2h, no bairro Morro da Cruz.

Segundo o relato de Lucas Mendes Miranda, 19 anos, ele estava em sua moto e dava carona para o amigo I.C. de 16 anos, quando tudo ocorreu. O jovem, que é militar do Exército Brasileiro e trabalha no contraturno como motoboy, relatou ao Mais Brasília que seguia pela via, quando uma viatura da Polícia Militar passou por eles.

Lucas relembra que o carro estava com faróis e sirenes desligados e, por não ter o que temer, seguiu adiante, mas, minutos depois, ele percebeu pelo retrovisor que a viatura estava atrás deles e dava ordem de parada.

De acordo com o jovem, por estar em um local escuro e ter medo de possíveis agressões por parte dos militares, acelerou a moto na intenção de encontrar um local mais claro. Porém, a polícia teria disparado duas vezes contra ele e o amigo e eles pararam em uma esquina.

“Assim que descemos da moto começaram as agressões. Levei diversos murros no rosto e chutes desses policiais. Cheguei a me identificar como militar, mas aí, eles me agrediram ainda mais”, contou.

Ainda conforme o relato de Lucas, quatro militares participaram das agressões. Ele denuncia que os policiais tiraram a etiqueta de identificação de suas fardas e que junto com eles havia uma PM mulher, mas ela teria sido a única que não desferiu golpes contra os amigos.

“Como sou militar sei observar as etiquetas e, a todo momento, eu procurava e não tinha nenhuma identificação deles. Eu até tentei olhar para o rosto, mas só apanhava”, relembra.

Um vídeo gravado por moradores do local onde a abordagem aconteceu mostra os militares dando chutes nos jovens que já estão no chão.

Em outro vídeo uma mulher que presenciou a abordagem chega a questionar a atitude dos PM’s. Um dos militares discute com ela e a manda “se fuder”.

Famílias com medo

Para o militar o que fica após o ocorrido é o medo. Lucas afirma que deseja justiça, mas diz que tem medo de retaliações por ter sofrido ameaça por parte dos policiais.

“Quando terminaram as agressões, eles tiraram fotos do meu rosto, da minha moto, pegaram meu endereço e meu número de telefone. Ainda me disseram para não contar sobre o assunto pra ninguém. Entendi como uma ameaça e que poderia vir a morrer se denunciasse”, finaliza o jovem.

Além de Lucas, a família do amigo dele que também sofreu agressões se diz com medo. Mãe do adolescente de 16 anos, a cabelereira Suerda Fernandes dos Santos, 35 anos, afirma que, desde o dia do ocorrido, não dorme direito enquanto o filho não chega em casa.

Segundo a mulher, o adolescente trabalha como garçom em um bar na Asa Norte e todos os dias chega em casa na madrugada.

“A gente fica com medo porque sabe como as coisas funcionam em nossa cidade. Não à toa, muita gente me disse pra não denunciar o caso”, explica.

Suerda ressalta que na manhã seguinte as agressões sofridas pelo filho e o amigo, ela procurou o 21º Batalhão da PMDF para entender o ocorrido e solicitar explicações. No local, ela afirma que falou com o Tenente Lima e que o militar afirmou que faria uma reunião com os policiais e o coronel para apurar o caso. Ainda segundo a mulher o policial teria dito que “ela tinha o direito de denunciar e que a PMDF não é de acordo com nenhuma violência”.

A mulher registrou ocorrência na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente e os envolvidos foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML). O resultado do exame de corpo e delito deve sair em até 10 dias.

Para Suerda, a justiça precisa ser feita, pois a polícia agrediu dois inocentes. Ela reforça que, ainda que tenha medo, não pode se calar.

“Não dá para deixar impune. Meu filho ainda passa bastante mal por conta das agressões sofridas. Há mais de 10 anos ele sofre com convulsões e nunca mais tinha tido nada, até ser espancado por quem deveria o defender. Agora, meu filho vive vomitando”, pondera.

Foto: Hematomas em corpo de adolescente após agressões. Foto: Arquivo pessoal/cedida ao Mais Brasília
Foto: Hematomas em corpo de adolescente após agressões. Foto: Arquivo pessoal/cedida ao Mais Brasília
Foto: Hematomas em corpo de adolescente após agressões. Foto: Arquivo pessoal/cedida ao Mais Brasília
Foto: Roupas de Lucas Sujas de sangue após agressão. Arquivo pessoal/cedida ao Mais Brasília
Foto: Boca de Lucas após agressões.Foto: Arquivo pessoal/cedida ao Mais Brasília
WhatsApp Image 2021-12-24 at 13.51.21 Foto: Boca de Lucas após agressões. Foto: Arquivo pessoal/cedida ao Mais Brasília

O que diz a PMDF?

Em nota, a PMDF informou que jovem abordado não acatou à ordem de parada dos agentes e que ele percorreu um trajeto da Vila São José ao Morro da Cruz.

Ainda segundo a corporação, os policiais só conseguiram “abordar o condutor no chão, depois que ele tentou fugir a pé e caiu e que a ação enérgica se fez necessária pela atitude suspeita do homem”.

A Polícia Militar ainda diz que abrirá o devido procedimento legal para apuração dos fatos.

Confira a nota na íntegra:

“A Polícia Militar informa que o homem abordado havia, minutos antes, se evadido em sua motocicleta, não acatando à ordem de parada dos agentes, ele percorreu da Vila São José ao Morro da Cruz.

Os policiais iniciaram o acompanhamento à motocicleta e só conseguiram abordar o condutor no chão, depois que ele tentou fugir a pé e caiu. A ação enérgica se fez necessária pela atitude suspeita do homem e para que ele não evadisse novamente.

Cabe ressaltar que, no mesmo serviço, a equipe apreendeu uma pistola 9mm e prendeu uma pessoa na mesma região. O local da abordagem é o mesmo onde houve uma tentativa de feminicídio no dia 9 deste mês, que chocou os moradores do Morro da Cruz, o que demonstra a necessidade de uma atenção maior dos policiais que fazem a segurança daquela comunidade. O vídeo divulgado mostra apenas parte da ação policial.

A PMDF abrirá o devido procedimento legal para apuração dos fatos.”

 

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