Líderes de religiões afro-brasileiras acusam polícia de truculência na caçada do 'serial killer do DF'
FolhaPress

Líderes de religiões afro-brasileiras acusam polícia de truculência na caçada ao ‘serial killer do DF’

Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro recorreu à Justiça no início desta semana para que não sejam realizadas buscas domiciliares sem a devida formalidade legal

Líderes afro-religiosos acusam a polícia de violação ilegal a templos e terreiros de Umbandá e Candomblé na região de Goiás onde está concentrada a procura por Lázaro Barbosa de Sousa, 32, acusado de assassinar brutalmente uma família no Distrito Federal.

Na tentativa de frear a investida das forças de segurança em tais locais, o Idafro (Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro) recorreu à Justiça no início desta semana. Ingressou com habeas corpus no Tribunal de Justiça de Goiás para que não sejam realizadas buscas domiciliares sem a devida formalidade legal nos templos e terreiros. Lembram que a Constituição, ao assegurar a liberdade de crença, garante a proteção aos locais de culto.

Sob o pretexto de capturar Barbosa por suposta ligação com religiões de matriz africana, afirma a entidade, “policiais militares e civis do estado de Goiás encetaram dezenas de invasões a templos afro-religiosos, inclusive no período noturno”.

Os representantes do Idafro dizem que policiais fizeram abordagens “desprovidos de mandado judicial e com emprego de arrombamentos, agressões físicas e morais, ameaças, destruição de símbolos religiosos, dano ao patrimônio cultural”.

De acordo com o instituto, desde a semana passada, pelo menos 10 templos afro-religiosos foram alvos de incursões policiais “abusivas e violentas”.

“Não é admissível que uma suposta vinculação do foragido com religiões afro-brasileiras, como tem sido especulado, seja motivo para essas incursões ilegais”, disse o advogado Hedio Silva Júnior, um dos autores do habeas corpus.

“Aprovamos o empenho que está sendo feito pela captura do foragido, mas a gravidade do crime não pode justificar ação ilegal do Estado.”

Até a conclusão desta reportagem não havia decisão da Justiça sobre o pedido do Idafro. A autoridade do Executivo estadual citado na peça foi o secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, coordenador da força-tarefa que atua na captura a Barbosa. Mais de 200 agentes de segurança participam do trabalho.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás afirmou que o trabalho é feito dentro dos “limites da legalidade” e que qualquer informação em sentido contrário “será recebida e encaminhada às respectivas corregedorias”.

Lázaro é procurado no entorno do DF, em uma área situada a pouco menos de 100 km de Brasília. As buscas entraram nesta quarta-feira (23/6) no 15º dia e estão concentradas no povoado de Girassol (GO), que faz parte do município de Cocalzinho de Goiás (GO).

Tata Ngunzetala, líder afro tradicional de uma comunidade de Candomblé de Angola e Umbanda, disse que os locais afro-religiosos se tornaram “alvos” da ação policial após a veiculação de uma imagem de um apetrecho sagrado retirado de uma casa de culto.

“Essa imagem, tirada sem autorização, resultado de uma invasão, em um lugar que não tem nenhum vínculo [com o foragido], começou a ser publicada, dizendo que era da casa da família do Lázaro e isso era o satanismo que ele praticava e era o que fazia ele ser quem ele é”, disse.

“Começou, a partir daí, uma ideologia de satanismo, sendo exacerbada e ligada às tradições afro. [Isso] não faz parte da nossa ideologia. Nossas casas começaram a ser alvo. Uma casa do Girassol foi invadida cinco dias seguidos.”

Também ligada a um terreiro de Candomblé na região, Makota Roxi Mutaledi recorreu às redes sociais para abordar o assunto. Ela disse que vários territórios religiosos foram invadidos, celulares de pais de santo e mães de santo vistoriados sem qualquer autorização, quartos sagrados violados.

“Com acusação de estarem acobertando o Lázaro”, afirma. “O que está acontecendo é intolerância religiosa, é racismo religioso. Não há comprovação de que ele pertença a alguma tradição de matriz africana.