PF diz à CPI que Governo do DF relatou que 8/1 seria pacífico – Mais Brasília
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PF diz à CPI que Governo do DF relatou que 8/1 seria pacífico

Relatório de inteligência produzido pelo governo local apontava invasão do Congresso

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

A PF (Polícia Federal) afirmou à CPI do 8 de janeiro que, um dia antes do ataque aos três Poderes, o Governo do Distrito Federal relatou que haveria uma “simples manifestação” de “cunho pacífico”.

Segundo a PF, a informação foi dada pelo número dois da Secretaria de Segurança Pública, Fernando de Souza Oliveira, e pela coronel da Polícia Militar do DF Cíntia Queiroz durante reunião no dia 7 de janeiro.

A Polícia Federal diz que, durante o encontro, o diretor-geral da corporação, Andrei Passos, “externou preocupação” com “o deslocamento de pessoas a Brasília” com o objetivo de “ocupar a Esplanada dos Ministérios e contestar o resultado das urnas eleitorais”.

A PF afirma que o diretor-geral destacou o “elevado grau de ameaça à segurança”, pediu o isolamento da Esplanada dos Ministérios e disse que a movimentação era um ato criminoso por si só porque atentava contra a democracia.

Segundo a corporação, a Secretaria de Segurança Pública do DF respondeu que estava ciente e preparada, e manifestou “entendimento diverso”, “alegando que se trataria de uma simples manifestação de cunho pacífico”.

A posição da secretaria sobre o caráter pacífico que as manifestações teriam foi expressada mesmo após o setor de inteligência da pasta identificar, na véspera da reunião, intenções golpistas dos bolsonaristas radicais que chegavam a Brasília.

No dia 6 de janeiro, a inteligência enviou um documento ao então secretário, Anderson Torres, e ao órgão responsável por planejar atividades operacionais da área.

“As divulgações apresentam-se de forma alarmante, dada a afirmação de que a ‘tomada de poder’ ocorreria, principalmente, com a invasão ao Congresso Nacional”, afirma trecho do relatório.

O documento destaca que os manifestantes propunham não só a invasão do Congresso, mas a ocupação de “órgãos públicos que representam os Três Poderes”, o que indica que autoridades sabiam da ameaça também ao Palácio do Planalto e ao STF (Supremo Tribunal Federal).

O texto ainda falava que havia previsão de “participação de milhares de pessoas e vinda de caravanas”, apesar de o acampamento em frente ao quartel-general do Exército estar em crescente desmobilização.

Após a reunião com a Secretaria de Segurança Pública do DF, a PF relatou ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino (PSB), o “cenário crítico que se apresentava”, e sugeriu o emprego da Força Nacional de Segurança Pública.

Dino então autoriza o emprego da Força Nacional e comunica o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), às 20h do dia 7 de janeiro. O governador só pediu o reforço das tropas, no entanto, na tarde do dia 8, quando os prédios públicos já tinham sido tomados pelos golpistas.

A Polícia Federal diz que, desde o dia 5 de janeiro, “era evidente em redes sociais” a ida de pessoas para Brasília “com propósitos de confrontar os resultados das urnas eleitorais”.

“Essa movimentação era evidente em redes sociais, estando ao alcance de qualquer pessoa, não sendo, portanto, necessário conhecimentos técnicos de inteligência para identificação do risco e da ameaça iminente”, diz trecho do ofício da PF.

Em outra reunião —realizada pela Secretaria de Segurança Pública no dia 6 de janeiro sem a participação da PF—, autoridades do Distrito Federal já falavam sobre a possibilidade de invasão de prédios públicos no final de semana.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal disse que não comenta investigações em curso, e “que todos os fatos relacionados à operação do dia 8 de janeiro de 2023 estão em processo de apuração”.

No dia 8 de janeiro, os manifestantes tiveram não só a entrada liberada na Esplanada dos Ministérios, como se aproximaram das sedes dos três Poderes escoltados pela Polícia Militar do Distrito Federal.

O grupo se concentrou em frente ao quartel-general do Exército e caminhou por cerca de 8 km até os prédios do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo lado a lado com a PM.

Fernando de Souza Oliveira estava à frente da pasta porque o secretário de Segurança Pública, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, estava de férias nos Estados Unidos.

Pouco antes da invasão ao Palácio do Planalto, Oliveira repetiu a informação de “tranquilidade” a Ibaneis Rocha. O secretário em exercício disse ainda que a pasta havia negociado a ida dos golpistas até a Esplanada dos Ministérios de forma “organizada”.

Em depoimento à CPI da Câmara Legislativa do Distrito Federal, ele disse que a Polícia Militar não seguiu o plano de ação integrada que tinha sido elaborado pela Secretaria de Segurança Pública e aprovado por Torres antes de deixar o país.

Já a coronel Cíntia disse à CPI que não houve falha no planejamento das ações, mas sim na execução —e culpou sobretudo a Polícia Militar do DF.

Por Thaísa Oliveira e Cézar Feitoza