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Fagner e filha de Belchior querem gravar músicas inéditas do compositor

Artistas planejam projetos para homenagear o cearense, após jornalista descobrir obras nunca apresentadas ao público

Foto: Reprodução

Belchior morreu em 2017, mas segue provocando novidades na música brasileira. Após o jornalista e pesquisador Renato Vieira descobrir sete canções inéditas do cearense, artistas planejam gravações das obras encontradas, sob grande expectativa dos fãs do compositor.

Tanto Vannick, filha de Belchior, quanto Fagner afirmam desejar gravar as músicas, que foram descobertas por Vieira após uma vasta pesquisa no acervo digitalizado do Arquivo Nacional.

“Essa ideia de eu fazer um disco cantando Belchior já existe há um tempo, veio com o Robertinho de Recife. Eu só estava esperando o momento certo, por causa dos meus outros projetos. Mas, agora, com essa pesquisa do Renato Vieira, o plano voltou com tudo”, diz Fagner.

Entre as canções encontradas por Vieira –”Fim do Mundo”, “Baião de Dois Vinte e Dois”, “Alazão”, “Adivinha”, “Outras Constelações”, “Bip… Bip…” e “Posto em Sossego”–, algumas são compostas em parceria com Fausto Nilo e Fagner, com quem Belchior teve uma relação marcada por forte amizade e brigas intensas.

Agora, quatro anos após a morte do cearense, Fagner quer gravar um disco das nove músicas compostas ao lado do amigo, incluindo as inéditas “Alazão” e “Posto em Sossego”, e “outras composições emblemáticas do Belchior”.

“A ideia, claro, é priorizar essas inéditas, que assim que bati o olho lembrei das melodias”, diz Fagner. “Mas quero também seguir com o plano de cantar outras, trazer as canções do passado para o presente. É uma maneira de mostrar o que realmente aconteceu entre eu e o Belchior, que foi a arte.”

O músico afirma que ele e o amigo sempre tiveram uma relação muito estreita e, que apesar de receber críticas de fãs do Belchior em razão das brigas que ambos tiveram, ele sempre manteve uma enorme admiração pelo artista.

O novo álbum de Fagner virá em breve, segundo ele, após a produção de um disco com Elba Ramalho e de um show com o maestro João Carlos Martins.

Como não constam em registros fonográficos –ou seja, nunca foram lançadas oficialmente–, as canções encontradas por Vieira até podem ter sido musicadas eventualmente, mas nunca chegaram ao público.

As obras foram enviadas para a Divisão de Censura de Diversões Públicas –órgão criado pela ditadura militar para analisar produções artísticas–, entre 1971 e 1979.

Nenhuma delas foi censurada, como aconteceu com outras letras que o pesquisador também garimpou. O motivo de nunca serem gravadas não é nítido, mas Vieira sugere questões com as gravadoras.

Uma das filhas de Belchior, Vannick, que se lançou como cantora neste ano, também se animou com a pesquisa do jornalista e diz planejar gravar em breve as canções inéditas do pai, ao lado do arranjador Tarcísio Sardinha, amigo do artista.

Vannick já vem se apresentando com obras do pai no projeto “Das Coisas que Aprendi nos Discos”, no qual canta 18 clássicos de Belchior. Agora, terá a chance de incluir as músicas inéditas.
“Onde quer que ele esteja, meu pai sempre anda bem perto de mim”, diz Vannick. “Ele sempre disse que eu seria cantora, me levava para shows como um incentivo, mas tudo tem a sua hora, e o meu momento é agora, que, aliás, é quase na mesma idade em que ele iniciou a carreira. Estou vendo essas inéditas como um grande presente.”

A cantora diz que, apesar de o pai nunca ter mencionado essas canções, não se surpreende com a descoberta porque sempre está “preparada para receber novidades quando o assunto é Belchior”, porque sabe da grandiosidade do músico, que também era artista plástico.

“Sou a filha mais nova, fui a que viveu menos tempo ao lado dele. Então, mergulhar nesse projeto está sendo quase uma reparação afetiva entre pai e filha”, afirma.

Vannick, porém, não sabe quando iniciará a imersão nas obras inéditas. Ela conta que ficou sabendo do acontecimento graças a uma publicação no Instagram e, em seguida, procurou Vieira para conversar.

O jornalista, que já reeditou 11 discos do cearense, diz que se sente feliz ao ver essas novidades surgindo e torce para as gravações. “Como as obras foram encaminhadas para a avaliação da censura, ele considerava gravá-las na sua própria voz, ou na de outros artistas”, diz Vieira.

Por Marina Lourenço