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Série ‘Dr. Death’ mostra história real de médico que matava e mutilava pacientes

Christopher Duntsch, carismático e inteligente, fazia suas vítimas na mesa de cirurgia

Foto: Reprodução

“Nós somos todos humanos. Todos erramos. Mas nesse ramo as consequências desses erros são mais graves”, diz um médico atencioso e confiante por trás da mesa de seu consultório. “Mas você não erra”, responde, então, uma simpática velhinha. “Não, eu não.”

Por mais arrogante que tenha soado, Christopher Duntsch não estava mentindo. Ele sabia exatamente o que estava fazendo quando, dias depois, mutilou a mesma paciente com quem teve essa conversa em uma mesa de cirurgia. Durante uma operação de baixa gravidade, ele abriu seu corpo e quebrou, furou e reposicionou diferentes partes, causando um sangramento irreversível e condenando a mulher à morte.

Não por causa de um erro médico, mas por uma combinação de sadismo e experimentação que acompanhou Duntsch em dezenas de cirurgias. Digno de filme de terror, o personagem não é obra da ficção –o médico não só existe, como há quatro anos foi condenado à prisão perpétua nos Estados Unidos.

Sua carreira macabra e sanguinária inspira agora a série “Dr. Death”, que chega neste domingo ao Starzplay, poucos meses depois de fazer sua estreia em solo americano. Nos oito episódios, acompanhamos as maldades de Duntsch enquanto ele opera pacientes que, em sua maioria, vão para o centro cirúrgico de forma eletiva, com quadros relativamente simples.

Quando alguns dos pacientes começam a apresentar problemas ainda mais graves no pós-operatório –ou, em alguns casos, nem chegam a acordar da anestesia–, dois outros médicos decidem investigar o passado de Duntsch –vivido aqui por Joshua Jackson– e descobrem que, por trás do brilhantismo e do charme do neurocirurgião, há uma personalidade distorcida, um verdadeiro sociopata, como um desses investigadores informais relatou.

“A questão de quão longe nós queremos ir já surgiu em outros projetos nos quais trabalhei. Nós tentamos levar as coisas da maneira mais delicada e cautelosa possível para não trazer novos traumas a pessoas atingidas por essa tragédia”, diz Christian Slater, que na série vive Randall Kirby, o médico que rotulou Duntsch de sociopata na denúncia citada.

“Na indústria de entretenimento, quando contamos histórias reais, usamos como justificativa para nos debruçarmos sobre elas a nossa esperança de que esses conteúdos vão trazer atenção para um problema, vão educar o público em relação a certas situações.”

Em “Dr. Death”, o nome dos protagonistas do caso foram mantidos –Duntsch, Kirby e o do terceiro médico envolvido no caso, Robert Henderson, interpretado por Alec Baldwin–, mas o das vítimas foi mudado, para preservar os familiares.

Slater está numa posição diferente daquela que ocupou em alguns dos principais papéis de sua carreira. Agora o mocinho bem humorado, com grande senso de justiça, o ator tem no currículo personagens como o adolescente homicida que quer explodir sua escola no cult “Atração Mortal” –ou “Heathers”, no original. Ele também encarnou tipos problemáticos em “Malícia”, em que matou um colega de sala com um sabre de esgrima, e “Um Estranho na Cidade”, em que vive um suicida que, no fundo, influencia a namorada a tomar o mesmo caminho drástico.

“Eu amei fazer esse novo tipo de personagem, um personagem que quer derrubar o sistema, mas do jeito certo”, diz ele sobre “Dr. Death”, em que ele tenta acabar com a vilania de Duntsch, um personagem tão narcisista, e ao mesmo tempo tão inteligente, que podia facilmente ser visto como a versão adulta do jovem perturbado de “Atração Mortal”.

Criada por Patrick Macmanus, de “Marco Polo”, “Dr. Death” transita entre dois terrenos extremamente férteis da televisão americana. De um lado estão os programas hospitalares, que rendem infinitas temporadas com dramalhões relativamente baratos de se produzir. De outro, as produções inspiradas em crimes reais, que viram sua popularidade crescer também na TV e no cinema brasileiros, com narrativas ensanguentadas que despertam a curiosidade mórbida do espectador.

“É algo inovador pôr o gênero de crime real dentro da arena da medicina, porque nas séries médicas nós normalmente nos concentramos nos dramas dessa área, ou no máximo em romances de bastidores. Nesse caso, nós mergulhamos nos crimes pela lente da medicina”, diz Macmanus.

Ele conta que diversos consultores estiveram presentes durante a produção da série, para garantir veracidade e realismo às UTIs e cirurgias vistas em cena. Falamos, afinal, de um assassino que cometia seus crimes não em paralelo à sua carreira, mas graças a ela, e que portanto sabia matar com certo “profissionalismo”. É, como o próprio título da obra e apelido que o criminoso ganhou indicam, um doutor da morte.

DR. DEATH
Quando: Estreia no Starzplay neste domingo (12/9)
Elenco: Joshua Jackson, Christian Slater e Alec Baldwin
Produção: EUA, 2021
Criação: Patrick Macmanus