Desenvolvimento foi limitado no Brasil mesmo em períodos de forte crescimento – Mais Brasília
FolhaPress

Desenvolvimento foi limitado no Brasil mesmo em períodos de forte crescimento

Livro aponta problemas e sugere soluções para áreas como mercado de trabalho, conjuntura econômica e finanças públicas

Foto: Arquivo Agência Brasil

Lançado em maio deste ano, a obra “O Salto do Sapo” reúne 14 economistas para discutir os desafios econômicos do país. O livro parte da premissa de que, mesmo em períodos de crescimento robusto do PIB (Produto Interno Bruto), o desenvolvimento no Brasil foi limitado nas últimas décadas.

No prefácio, é levantada uma questão que pode ser considerada central: “Afinal, o que mede o sucesso econômico de um país?”.

Nas considerações iniciais, Antônio Corrêa de Lacerda, diretor da Faculdade de Economia da PUC-SP e presidente do Conselho Federal de Economia, pondera que o crescimento do PIB é um indicador importante, mas que há grande contraste entre realidade e números.

Enquanto o Brasil permanece entre as dez principais economias do mundo, o país tem um dos maiores níveis de concentração de renda e está em 84º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

“O crescimento econômico é uma condição necessária, dada as características brasileiras, embora não suficiente”, pontua.

Ao longo de 320 páginas, economistas tentam levantar hipóteses e encontrar soluções para dinâmicas distorcidas, que não geram evolução, mesmo diante de números promissores, no que chamam de “difícil corrida brasileira rumo ao desenvolvimento econômico”.

O livro faz analogia ao pulo do sapo, que após dar pequenos saltos -indicando que conseguirá ir mais longe- para por um longo período. Segundo os especialistas, foi assim que a atividade se comportou no Brasil nos últimos anos.

“Os esforços empreendidos nos últimos anos são inócuos e, por vezes, contraproducentes para resolver o nosso problema de subdesenvolvimento econômico”, justificam os economistas André Galhardo e Franklin Lacerda, organizadores da obra.

O livro é dividido em quatro temas: macroeconomia, inovação, meio ambiente e economia política.
Em linguagem acessível, os economistas mostram como falhas estruturais dificultam o desenvolvimento econômico brasileiro.

Os capítulos apontam problemas e sugerem soluções para áreas como mercado de trabalho, meio ambiente, conjuntura econômica e finanças públicas.

Uma vida sustentável é a proposta do professor de economia da PUC-SP Ladislau Dowbor. Para o pesquisador, não há razão econômica ou técnica para que pessoas passem fome no mundo.

“No Brasil, o PIB de 2019, R$ 7,3 trilhões, equivale a R$ 11 mil por mês por família de quatro pessoas. É dizer que no mundo não faltam recursos. Nosso problema não é econômico, é de organização política e social”, conclui.

No capítulo escrito pela economista e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense) Julia Braga, por exemplo, há o detalhamento de um fenômeno no mercado de trabalho brasileiro, o desemprego disfarçado, que teve dinâmica modificada pela pandemia da Covid-19.

Segundo a pesquisadora, ao se verem desempregados, muitos procuram ocupações secundárias, normalmente informais e precárias, para gerar alguma renda. Esses trabalhadores estariam dentro da categoria de desemprego disfarçado.

“São exemplos de desemprego disfarçado casos cotidianos da vida moderna, como uma trabalhadora que perdeu seu posto de trabalho no mercado formal e começou a utilizar um aplicativo de carona para auferir alguma renda”, exemplifica.

Nas estatísticas de emprego, a modalidade acabaria distorcendo a realidade.
Na pandemia, segundo o livro, os trabalhadores informais, que afloraram depois da recessão de 2015-2016, foram os mais prejudicados. “É possível dizer que a pandemia revelou a precariedade do mercado de trabalho brasileiro e o desemprego que estava disfarçado”, ressalta.

De acordo com a economista, o mercado de trabalho pode passar pelo chamado processo de histerese nos próximos anos, em que os níveis de desemprego ficam elevados por longo período.

“As simulações feitas neste estudo indicam que a taxa de desemprego ficará alta nos próximos cinco anos, mesmo com a hipótese de uma recuperação da atividade econômica.”

Em outro capítulo, o economista André Luis Campedelli, professor da Unip (Universidade Paulista), questiona o regime de metas para a inflação, adotado no Brasil desde 1999, e propõe alternativas ao sistema.

Para o pesquisador, o regime pressupõe que a inflação brasileira seja majoritariamente de demanda, com choques de oferta temporários.
Para combater a alta de preços, o governo fixa metas a serem perseguidas pelo BC (Banco Central) ano a ano. A autoridade monetária usa a taxa básica de juros (Selic) para controlar o indicador, aquecendo ou estimulando a economia.

“O que se observa é uma predominância dos custos na formação de preços no Brasil, o que faz com que o combate seja feito de maneira equivocada, desaquecendo a economia de forma excessiva para fazer a inflação se encaixar na meta”, afirma
Há ainda discussões e reflexões importantes dentro do cenário econômico que envolvem também inovação, educação e questões sociais.

Texto: Larissa Garcia