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Mais de 50% das indústrias têm falta de insumo, diz FGV

O aumento do preço no mercado internacional é citado por 42% das companhias como um dos fatores que dificultam a aquisição de insumos

Foto: Arquivo Agência Brasil

EDUARDO CUCOLO E FERNANDA BRIGATTI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O percentual de empresas que enfrentam falta de insumos e matérias-primas teve ligeira queda entre novembro do ano passado e junho deste ano, mas a melhora é vista com cautela, uma vez que muitas companhias que estão na base da cadeia produtiva ainda trabalham com restrições.

De acordo com sondagem especial do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), 55,5% das empresas do setor industrial reportaram dificuldades com insumos em novembro. Em junho deste ano, eram 52,4%, oscilação na margem de erro de dois pontos percentuais da pesquisa.

Os percentuais mais elevados, acima de 70%, estão atualmente nas indústrias de veículos, de informática e eletrônicos e de químicos. Em novembro do ano passado, variavam de 50% a 61% nesses segmentos.

Também se destacam os níveis elevados de restrição à produção em indústrias da base da cadeia, como minerais não metálicos (65%), produtos de plástico (62%) e produtos de metal (53%), entre outras.

Mesmo em segmentos nos quais a situação melhorou significativamente, os percentuais ainda estão próximos ou acima de 50%. É o caso de vestuário (de 77% para 65%) e têxtil (de 75% para 49%), indústrias cujos problemas de produção afetam também o comércio varejista.

Viviane Seda Bittencourt, superintendente-adjunta de Ciclos Econômicos do FGV Ibre, afirma que a situação ainda é preocupante, pois mais da metade das empresas reportaram restrições, algumas delas de segmentos que influenciam outros setores da economia.

“Apesar de ter diminuído, ainda há problemas para a maioria das empresas. São segmentos-chave, alguns que estão na base da cadeia e podem criar um gargalo, além de terem relevância econômica importante”, afirma.

“Você tem uma perda de capacidade do crescimento da indústria durante este ano por conta dessa escassez.”
Outra preocupação, segundo Viviane, é que 56,7% das empresas consultadas afirmam prever uma normalização da entrega de matérias-primas e bens intermediários ainda neste ano. Mas 25,5% só esperam que isso ocorra em 2022, e 17,8% não conseguem fazer previsão.

Ainda segundo a pesquisa, houve queda no percentual de companhias que enfrentam problemas com falta de produto no mercado interno, de 85% para 76%, mas o percentual ainda é elevado. Em relação a insumos importados, o percentual passou de 41% para 45%.

O aumento do preço no mercado internacional é citado por 42% das companhias como um dos fatores que dificultam a aquisição de insumos. Questões cambiais e de dificuldade na entrega/logística são citadas por cerca de 20% dos entrevistados, cada uma.
Na sondagem, foram ouvidas 1.098 indústrias, por meio de questionário eletrônico ou contato telefônico.

A economista do FGV Ibre Cláudia Perdigão afirma que há segmentos que apresentam atualmente estoques baixos em relação à média histórica e enfrentam restrições à produção, como o de bens de capital, no qual o percentual de indústrias que reportaram dificuldades passou de 41% para 57% nas duas pesquisas.

“Isso pode representar uma dificuldade para a retomada de projetos de investimento, pode acabar atrapalhando a recuperação de outros segmentos”, afirma a economista, que aponta ainda a incerteza em relação a outro insumo importante, a energia elétrica, no segundo semestre.

Na produção de veículos e de produtos de informática, a principal dificuldade, segundo as associações de fabricantes, ainda é com a compra de chips semicondutores. A escassez dessa matéria-prima tem afetado a cadeia de produção em todo o mundo.

Após as paralisações na produção no início da pandemia, o consumo aquecido de produtos como computadores, celulares, tablets e televisores levou a uma corrida por chips.

No setor automotivo, a dificuldade na compra e a imprevisibilidade com as entregas levaram diversas fábricas a interromper a produção para ajustar o volume de matérias-primas à capacidade de produção.

Nesse segmento, apenas 30% das empresas prevê uma normalização ainda em 2021, percentual semelhante ao verificado nas indústrias de produtos de metal e materiais elétricos.

A Anfavea (associação das montadoras) calcula que a falta de semicondutores já tenha impedido a produção de 100 mil a 120 mil veículos neste ano.
No início deste mês, o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, disse que a baixa oferta de chips tem segurado a retomada do setor. O volume de veículos produzidos em junho -166.947 unidades- foi o pior dos últimos 12 meses, resultado das paralisações das montadoras.

Em junho, fábricas de eletrônicos apontaram, pela primeira vez, a necessidade de paralisação parcial da produção por falta de componentes.
A Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) começou, em fevereiro deste ano, a perguntar às empresas quais as consequências das dificuldades em comprar peças. Pelo menos 12% das associadas disseram ter havido a necessidade de reduzir o ritmo de produção.

A associação registra também um aumento de 20% para 26% o número de empresas com estoque de componentes e matérias-primas abaixo do desejado e com menos produtos prontos. Peças eletrônicas vindas de países asiáticos são as mais citadas pelas empresas com dificuldades com insumos e matérias-primas. A sondagem da FGV aponta que 48% dessas empresas preveem normalização neste ano.

O presidente da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), Ciro Marino, diz que a partir de fevereiro o abastecimento de insumos começou a ser normalizado e que os estoques já estão praticamente equilibrados.

“Além dos estoques ajustados, os preços começaram a recuar. A combinação [do nível de estoque] com oferta de petróleo e câmbio um pouco mais favorável trouxe um recuo na faixa de 10% nos preços de insumos. Tudo nos leva a crer, hoje, que a demanda aparente está superior à demanda real”, diz Marino.

Do portfólio da indústria química, o dirigente avalia que o segmento de resinas plásticas ainda enfrenta alta de preços. O encarecimento é parte reflexo do consumo gerado pela pandemia e, por outro lado, em consequência de questões pontuais, como a paralisação da produção da Braskem no pólo petroquímico do ABC paulista, para manutenção. A pausa, diz Marino, era prevista, mas representou quase dois meses sem produção.

Do lado da demanda pandêmica, o executivo da Abiquim destaca o consumo de polipropileno, material usado na produção de EPIs (equipamentos de proteção individual) como máscaras, aventais, toucas e seringas.

Um ponto de preocupação no segmento hoje é a iminente crise hídrica, uma vez que o segmento faz uso intenso de água na produção. “Estivemos com o ministro Bento [Albuquerque, de Minas e Energia], que nos assegurou que não teremos problema. O custo é que ficará certamente mais alto.”