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‘Me sentia sujo’, diz Rodrigo Santoro sobre maldade de personagem em ‘7 Prisioneiros’

Ator diz que não conseguia abraçar filha quando chegava das filmagens

Foto: Reprodução

“Posso te fazer uma pergunta rápida? Rapidamente, assim de pingue-pongue, o que você sentiu pelo Luca?”, pergunta Rodrigo Santoro ao repórter durante entrevista exclusiva à reportagem para falar sobre o filme “7 Prisioneiros”, que estreia nesta quinta-feira (11/11) na Netflix. Ao ouvir a palavra “asco”, ele concorda: “Eu também, enquanto ser humano”.

Porém, como ator, foi preciso evitar ao máximo fazer julgamentos, o que não foi algo exatamente fácil. Luca é o chefe de um ferro-velho que emprega jovens recém-chegados do interior na capital paulista. Eles vêm com a expectativa de melhorar de vida e poder ajudar as respectivas famílias, mas descobrem uma realidade brutal.

O filme mostra um Santoro muito diferente do que o público está acostumado, bem distante dos galãs que já fez em novelas, mas também de qualquer estereótipo de vilão. “Eu estava ali fazendo um trabalho, me emprestando para fazer para expressar aquele personagem dentro daquela realidade”, comenta.

“Naturalmente, foi inevitável o julgamento que eu acabava fazendo das próprias atitudes dele”, afirma. “Eu mesmo me pegava falando: ‘Está meio demais isso aqui, precisa?’. ‘Precisa, é assim mesmo’. Então foi um trabalho interno de questionamento de conforto muito grande.”

O ator avalia que o personagem não poderia estar mais longe dele, mas tentou entender suas motivações. “Eu me considero um privilegiado, cresci numa família de classe média”, diz. “O Luca tem até uma fala em que diz de onde veio, uma realidade muito distante da minha, da qual eu já tinha me aproximado em outros trabalhos, mas desta vez me aproximei com mais profundidade.”

As maldades cometidas por Luca contra os empregados, que acabam em situação análoga à escravidão, além do envolvimento com tráfico de seres humanos, ficavam no set. Mas isso não significa que os sentimentos ruins gerados por aquelas ações não transbordavam para a vida.

“Mexeu muito comigo”, admite o ator. “Quando eu chegava em casa, quem abria a porta para mim era uma criança de 2 anos, [idade da] minha filha naquele momento, e não podia ser mais difícil. Ela vinha cheia de amor, falando: ‘Papai, papai…’. E eu falava: ‘O papai vai tomar um banho’. Eu me sentia muito sujo mesmo, fisicamente. Eu precisava…”

Ele diz que era difícil conseguir separar o profissional e o pessoal nesses momentos. “Tinha consciência, não estava perdido na realidade da personagem, mas fica um pouco impregnado porque estava passando o dia inteiro ali no set.”

O fato de o personagem ser complexo, tridimensional, não aliviava o peso das ações dele. Até porque o passado de Luca vai sendo desvendado aos poucos. O ator, no entanto, diz que a ideia não era isentar Luca de suas responsabilidades.

“Uma preocupação que eu tinha era encontrar a melhor forma de humanizar esse personagem”, afirma o ator. “Não redimir, muito pelo contrário. Acho que o Luca é um explorador, vive da exploração de trabalhadores nesse ferro-velho, é plenamente consciente das coisas terríveis que faz e não pede desculpa.”

“Ele tem o seu próprio discurso em relação a tudo que passou na vida, mas acho que o Luca também não deixa de ser o produto dessa ferida profunda que a gente tem que é desigualdade social, que é um sistema absolutamente excludente”, avalia. “Ao mesmo tempo, é uma linha muito tênue, porque a gente não pode colocar ele como alguém que pode ser redimido das coisas que está fazendo. Então é um equilíbrio bastante delicado.”

Santoro diz que seu trabalho teve muita parceria com o diretor Alexandre Moratto e com o colega de cena Christian Malheiros, que interpreta Matheus, um dos rapazes aprisionados. “A gente tinha a cena escrita, mas ia sempre aberto, não para um improviso completamente solto, mas tinha um apetite muito claro por descobrir a melhor forma de fazer cada cena. Os nossos guias eram o realismo e a humanidade das duas personagens.”

Aliás, a relação em cena com Malheiros, conhecido dos assinantes da plataforma de streaming pelo papel de Nando na série “Sintonia”, foi outro dos pontos delicados da experiência. É que os dois se deram muito bem, o que dificultava na hora de antagonizar na frente das câmeras.

“Às vezes, o Christian vinha, a gente se abraçava, ele é muito generoso e muito carinhoso, só que a gente estava em lados opostos”, lembra Santoro. “Ele exala um carisma e algo muito bonito que ia contra [o sentimento que precisava mostrar] às vezes. Eu não olhava, eu precisava ficar no meu canto porque se não eu ia acabar seduzido pelo que via.”

Christian concorda e diz que a relação entre os dois foi muito importante para o filme. “O meu material de trabalho era muito o que o Rodrigo me dava”, afirma. “Se ele me dava de intensidade, era o que voltava, o que eu devolvia também. Então era um jogo muito vivo ali.”

O ator diz que as mudanças pelas quais o personagem dele passa no filme, que vai do menino inocente que chega do interior ao braço direito do chefe, são tão sutis que nem mesmo ele percebe quando a chave do personagem virou.

“Acho que ele não tem consciência disso, ele não tem esse lugar de ‘olha, não tem mais volta’. Eu acho que ele até o último momento está tentando realmente salvar os amigos”, afirma. “Ele está tentando realmente fazer com que aquela situação mude.”

“Só que ele está tentando isso a partir da estratégia dele, entende que não vai ser da forma que ele quer”, avalia. “Chega uma hora que ele aceita o jogo, mas acho que o coração dele ainda está naquela busca de tentar mudar de alguma forma aquilo e tentar sair desse desse mecanismo.”

Fato é que, apesar do tema denso e da demanda durante as gravações, os atores acreditam estar diante de uma história que precisava ser contada. “Foi um grande aprendizado para mim, especialmente como ser humano”, diz Santoro. “Me colocou num lugar muito desconfortável.”

E, claro, isso não vale apenas para o elenco. “Acho que o espectador sai um pouco em dilema moral dessa história”, prevê o ator. “É algo pouco discutido e absolutamente necessário porque essas pessoas são colocadas numa situação terrível.”

“Enquanto a gente está aqui conversando há 40 milhões de pessoas no mundo inteiro humilhadas e que sofrem uma série de privações”, afirma. “O filme talvez sensibilize para que você que se interesse a pesquisar sobre o assunto.”

“7 PRISIONEIROS”
Quando: estreia 11/11
Onde: na Netflix
Classificação: 14 anos
Elenco: Rodrigo Santoro, Christian Malheiros, Bruno Rocha, Vitor Julian e Lucas Oranmian, entre outros.
Direção: Alexandre Moratto

Por Vitor Moreno