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China fala sobre tenista Peng Shuai pela 1ª vez e diz que caso foi politizado

"Este não é um assunto diplomático", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China em entrevista

Foto: Reprodução

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China criticou nesta terça-feira (23/11) o que chamou de “politização” do caso da estrela do tênis Peng Shuai, na primeira manifestação pública do regime sobre as acusações feitas pela atleta de ter sido assediada sexualmente por um ex-dirigente do regime comunista.

Questionado em uma entrevista coletiva sobre o impacto da polêmica para a imagem da China, o porta-voz do ministério, Zhao Lijian, respondeu de maneira breve.

“Este não é um assunto diplomático”, disse. “Espero que certas pessoas parem de exagerar de maneira maliciosa, de politizar o tema”, afirmou, sem explicar a que pessoas se referia em suas declarações.

O paradeiro de Peng, ex-número 1 do mundo no ranking de duplas, tornou-se uma preocupação internacional por quase três semanas depois que ela postou uma mensagem nas redes sociais afirmando que o ex-vice-premiê da China Zhang Gaoli a havia agredido sexualmente.

Ela reapareceu no fim de semana em Pequim e fez uma videochamada com o presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Thomas Bach, no domingo (21/11), mas a WTA (Associação de Tênis Feminino, na sigla em inglês) disse que isso não abordou ou aliviou as preocupações sobre seu bem-estar.

O pesquisador Alkan Akad, da Anistia Internacional para a China, também disse à agência de notícias Reuters que a videochamada fez pouco para diminuir os temores sobre o bem-estar de Peng e que o COI estava entrando em “águas perigosas”.

A preocupação em torno da situação da atleta e a intervenção do COI também acontecem num momento em que grupos de direitos humanos e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sugerem um boicote às próximas Olimpíadas de Inverno, que serão disputadas em fevereiro, na capital chinesa.

Em 2 de novembro, Peng postou na mídia social chinesa Weibo que Zhang a havia forçado a fazer sexo e mais tarde eles tiveram um relacionamento consensual intermitente. A postagem foi excluída logo após sua publicação.

Segundo uma captura de tela da conta verificada de Peng, a tenista afirmou que Zhang Gaoli, que fez parte do Comitê Permanente do Politburo, órgão que representa a cúpula do PC Chinês, a coagiu a fazer sexo e que, depois, eles tiveram uma relação consensual intermitente.

Na mensagem, a esportista dizia não ter evidências que sustentassem suas alegações. A publicação foi excluída, mas reproduções da denúncia foram compartilhadas em outras redes sociais.

Zhang, hoje com 75 anos, foi vice-premiê da China entre 2013 e 2018. Ele também foi secretário do partido na província de Shandong e integrou o Comitê Permanente do Politburo entre 2012 e 2017.

Peng, por sua vez, liderou o ranking mundial de duplas em 2014, tornando-se a primeira tenista chinesa a alcançar o topo da lista, após conquistar os torneios de Wimbledon em 2013 e Roland Garros em 2014, ambos ao lado da taiwanesa Hsieh Su-wei. Ela também representou a China nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, de Londres em 2012, e do Rio, em 2016.

Por anos, casos de assédio e abuso sexuais raramente foram abordados publicamente na China. O cenário mudou em 2018, quando o movimento #MeToo chegou ao país, após uma estudante universitária acusar um professor de assédio. O episódio chamou a atenção de ONGs, imprensa e outros setores.

Assim como no caso de Peng, as redes sociais costumam ser o principal canal de exposição das denúncias, pois a imprensa local em geral não cobre o tema. Ainda assim, discussões nos espaços online não fogem dos olhos do governo, que vigia a internet no país. Para isso, criou-se uma série de leis e ferramentas digitais de bloqueio, como parte de uma política que vem sendo aprimorada desde os anos 1990. As empresas do mercado digital do país são obrigadas a fiscalizar e restringir a atividade dos usuários, sob pena de perderem o direito de operar. Quem violar as regras pode ser multado e preso.

O controle da internet é parte da política de censura do Partido Comunista Chinês, que veta também a circulação de notícias e informações que desagradem ao governo ou que, na visão do regime, possam gerar problemas para a sociedade.