Histórica e atípica, cerimônia que abre Tóquio-2020 explora superação em meio à pandemia

Diversidade e inclusão também foram destaques, assim como a questão da igualdade de gênero

CAMILA MATTOSO, LEANDRO COLON E DANIEL E. DE CASTRO
TÓQUIO, JAPÃO (FOLHAPRESS) – Diante de arquibancadas vazias, as Olimpíadas de Tóquio-2020 foram oficialmente abertas nesta sexta-feira (23), com destaque para a luta contra a pandemia de Covid, a promessa de segurança durante as competições e a importância do esporte e dos atletas para unir povos em um momento difícil.

Não houve clima de festa na cerimônia de quase quatro horas até a pira olímpica ser acesa pela tenista Naomi Osaka. A crise sanitária que assolou o mundo foi lembrada nos discursos de autoridades, em músicas, no uso inédito de máscara por membros das delegações e em atos, como o desfile da bandeira olímpica, carregada por seis atletas que atuaram em comunidades locais no combate ao coronavírus.

Diversidade e inclusão também foram destaques, assim como a questão da igualdade de gênero. Pela primeira vez, seis pessoas, três homens e três mulheres, fizeram o tradicional juramento de atletas.

O momento mais impressionante foi um balé com 1.824 drones. No céu, formaram o símbolo dos Jogos de Tóquio e, depois, a Terra. Ao fundo, “Imagine”, de John Lennon. O mais divertido, por sua vez, foram os “pictogramas humanos”, representando os movimentos característicos das 50 modalidades olímpicas.

A cerimônia histórica e atípica foi realizada no Estádio Olímpico de Tóquio sob clima de apreensão da população japonesa, preocupada com a possibilidade de o evento acelerar os casos de Covid. Protestos ocorreram durante a cerimônia e, em alguns momentos, puderam ser ouvidos de dentro do estádio.

No mesmo dia em que os Jogos foram abertos, Tóquio, sob estado de emergência desde o último dia 12, registrou 1.359 novas infecções por coronavírus, mantendo o patamar de casos diários acima de 1.000, o que preocupa as autoridades locais. Ao todo, o Japão contabiliza 858 mil casos e 15,1 mil mortos.

Dados oficiais apontam 110 contaminações ligadas às Olimpíadas, 12 das quais na Vila Olímpica. Há o temor de que estrangeiros visitantes possam ser via de transmissão de novas variantes, como a delta.

Não à toa, os discursos na cerimônia de abertura tiveram acenos à população local, com agradecimentos por receber o evento em um momento tão difícil.

As autoridades também voltaram a afirmar que os Jogos serão realizados em segurança. As cadeiras do estádio, com capacidade para 68 mil pessoas, estavam em sua gigantesca maioria vazias devido à decisão de vetar a presença de público nas arenas em Tóquio.

Assim, o povo japonês, que tanto esperou repetir em 2020 os Jogos de 1964, assistiu à festa pela TV.

O imperador Naruhito apareceu na tribuna ao lado do presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Thomas Bach. Depois, declarou os Jogos abertos.

Apenas algumas cadeiras do estádio foram separadas para convidados, além do espaço reservado à imprensa. Segundo o comitê local, cerca de 10.400 pessoas estavam presentes: 6.000 de delegações e convidados de honra, além de 4.500 credenciados como mídia.

As Olimpíadas de Tóquio foram inauguradas no mesmo palco dos Jogos de 1964, evento usado pelos japoneses para reabrir o país ao mundo após a Segunda Guerra. Um cenário bem diferente do de agora.

A cerimônia foi dividida em nove atos, que envolveram a participação de 1.400 pessoas. Sob a trilha sonora de videogames japoneses, delegações de todos os tamanhos desfilaram. Os organizadores estimam que 5.700 pessoas de 207 países passaram pelo Estádio Nacional.

Além do uso de máscara, outra novidade foi a presença de duplas de porta-bandeiras, um homem e uma mulher. Alguns carregaram o símbolo ao mesmo tempo, outros se alternaram na tarefa.
A delegação brasileira, uma das menores, compareceu com quatro pessoas, em respeito à pandemia. A judoca Ketleyn Quadros e o jogador de vôlei Bruninho foram os porta-bandeiras do time brasileiro.

Eles tiveram a companhia do chefe da missão e vice-presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Marco La Porta, e de Joyce Ardies, funcionária responsável pelo contato com a organização.

A preocupação com aglomerações se justificou. Apesar do evento ao ar livre e do uso de máscaras, algumas delegações ficaram bem próximas umas das outras. Por outro lado, a cerimônia destacou os desafios de Tóquio para a realização dos Jogos Olímpicos enquanto o mundo ainda enfrenta a Covid-19.

Um vídeo mostrou o impacto causado pelo distanciamento social, limitando a interação física entre as pessoas, e destacou a determinação dos atletas para se superarem nessas circunstâncias, treinando muitas vezes sozinhos, sem apoio de outras pessoas.

Em seu discurso, Seiko Hashimoto, que preside o comitê local dos Jogos, lembrou o adiamento do evento devido à pandemia, afirmando que os organizadores trabalham para que todas as pessoas do Japão e de fora possam se sentir seguras.

Bach, presidente do COI, também citou a crise sanitária. Agradeceu o povo japonês e elogiou os voluntários locais, chamados por ele de “embaixadores” do país. Horas antes do evento, algumas dezenas de pessoas se reuniram em um bairro tradicional de Tóquio para protestar contra as Olimpíadas.

O ato contou com faixas e cartazes com frases contra o evento, e algumas pessoas fizeram discursos questionando o motivo de o governo japonês ter aceitado a competição neste momento de pandemia. “Fora Suga”, em referência ao premiê japonês, Yoshihide Suga, estampava algumas das mensagens.

“Vamos cancelar as Olimpíadas em que o dinheiro é mais importante que vidas'”, mostrava outro cartaz.

Nos últimos dias, a organização enfrentou turbulências, como a queda do diretor artístico do evento, Kentaro Kobayashi, após revelações de que ele fez piadas sobre o Holocausto nos anos 1990, quando atuava como comediante. Na segunda-feira, a Toyota, uma das principais patrocinadoras dos Jogos, já havia informado que deixaria de circular anúncios na abertura.

No mesmo dia do anúncio da montadora, um dos compositores da cerimônia desistiu de participar do evento. Conhecido pelo nome artístico Cornelius, Keigo Oyamada, 52, viu sua presença ser bombardeada devido a declarações nos anos 1990 em que confessou ter praticado bullying com crianças deficientes. Oyamada deixou o posto e o abacaxi no colo do comando dos Jogos.

Sair da versão mobile