EUA apostam em caminhão de areia e enxurrada de processos contra nova invasão do Capitólio

A investigação envolve vários órgãos federais, mas o trabalho mais ruidoso é feito em paralelo, por uma comissão do Parlamento

Um ano depois de uma multidão invadir o Congresso tentando cancelar o resultado da eleição, o governo americano encontrou e puniu mais de 700 participantes do ataque e reforçou a segurança do Capitólio até com caminhões de areia, mas ainda busca meios de responsabilizar autoridades envolvidas na ação.

A investigação envolve vários órgãos federais, mas o trabalho mais ruidoso é feito em paralelo, por uma comissão do Parlamento. O grupo, que reúne democratas e republicanos, tem convocado pessoas próximas a Donald Trump para apurar a responsabilidade do ex-presidente e de figuras de sua administração na invasão, que terminou com cinco mortos.

Entre elas estão Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, e Mark Meadows, ex-chefe de gabinete da Casa Branca. O primeiro se recusou a depor e chegou a ser preso e processado por isso; o segundo também se negou a comparecer inicialmente, mas mudou de ideia e entregou registros de mensagens trocadas com várias pessoas no dia 6 de janeiro de 2021, cujo conteúdo vem sendo relevado aos poucos.

Na terça (4/01), por exemplo, vieram a público conversas de Meadows com Sean Hannity, apresentador da Fox News e confidente de Trump. As mensagens sugerem que o âncora estava ciente dos planos do então presidente –e preocupado com eles. “Eu NÃO vejo o 6 de Janeiro acontecendo do modo que falaram para ele”, escreveu Hannity ao chefe de gabinete da Presidência.

Na prática, a agressão à democracia de um ano atrás foi uma tentativa de Trump e apoiadores de mudar à força o resultado da eleição. O republicano havia perdido a reeleição para Joe Biden, em novembro de 2020, mas se recusou a assumir a derrota, alegando uma suposta fraude, nunca comprovada.

No dia da certificação do pleito, a estratégia era convencer parlamentares a invalidar parte dos resultados. O então presidente considerou que poderia reverter a derrota nas urnas caso conseguisse que congressistas mudassem os números de alguns locais –manobra inviável na Câmara– e pressionou seu vice, Mike Pence, que comandaria a sessão, a recusar dados enviados pelos estados (o que ele se negou a fazer).

Trump fez um comício para questionar o resultado do voto popular e exortou seus apoiadores a lutar (sem pedir explicitamente que invadissem o Congresso). Em seguida, se recolheu e permaneceu quieto durante a invasão, por mais de duas horas, apesar de apelos para que fizesse algo.

Mensagens de Meadows já divulgadas mostraram que vários aliados foram ignorados. “Ele [Trump] tem de condenar essa merda rápido”, escreveu Donald Trump Jr., filho do então presidente, para o então chefe de gabinete, que respondeu: “Estou pressionando firme. Concordo”. Trump Jr. insistiu: “Precisamos de um discurso no Salão Oval. Ele tem que tomar a frente agora. Isso foi longe demais e saiu do controle”.

Os registros poderão ser usados como provas de que o republicano tinha pleno conhecimento de que o Congresso estava sob ataque e deliberadamente decidiu não agir. Se ficar provado que ele e outras autoridades tiveram papel ativo em planejar a invasão ou foram negligentes, poderão ser processados na esfera criminal por tentar impedir ou corromper um procedimento oficial do Congresso –a certificação dos votos–, crime previsto no código de leis federais com pena que pode chegar a 20 anos de prisão.

Trump foi alvo de um processo de impeachment dias após a invasão. Ele foi considerado culpado pela Câmara, mas inocentado pelo Senado, que tinha maioria republicana. A decisão, no entanto, não impede novos processos futuros.

Os parlamentares querem também acesso aos registros oficiais das comunicações do ex-presidente naquele período, que estão sob guarda do Arquivo Nacional. No fim de dezembro, ele pediu à Suprema Corte que impeça a revelação das informações –não há data prevista para a análise do caso.

A comissão do Congresso fez um convite para que Hannity, da Fox News, deponha formalmente, e o deputado democrata Bennie Thompson, chefe do grupo, quer ouvir também Pence. “A vida dele estava em risco. Havia pessoas no gramado do Capitólio que queriam enforcar o vice-presidente, ele não podia sair do Congresso por causa da ação”, disse Thompson à CNN americana.

Assim, os próximos meses terão uma série de depoimentos no Parlamento, com alguns transmitidos ao vivo. Ainda neste ano deverá ser elaborado um relatório final, detalhando as informações obtidas e atribuindo responsabilizações. Se os desgastes da gestão Biden colocam em risco a maioria na Câmara e no Senado nas midterms, eleições de meio de mandato em novembro, analistas veem as investigações sobre o 6 de Janeiro como uma pedra no sapato para republicanos.

“Isso foi consequência de inação, porque o ataque foi orquestrado por uma rede de ultranacionalistas supremacistas brancos e milícias violentas, às quais falhamos em investigar e processar por muitos anos. Não podemos falhar de novo”, avalia Patrick Gaspard, diretor do think tank Center for American Progress.

À parte do Congresso, em outro flanco, o FBI tem feito um amplo trabalho para identificar e prender pessoas que participaram da invasão de fato. A grande quantidade de imagens, muitas delas publicadas em redes sociais pelos próprios ativistas, ajudou na tarefa.

Segundo dados do Departamento de Justiça, até 30 de dezembro cerca de 725 réus foram presos. Destes, mais de 225 foram processados por atacar ou impedir o trabalho de funcionários públicos, 10 por atacar profissionais de imprensa e 75 por entrar em área restrita com uma arma mortal.

Outros 40 foram processados por conspiração para obstruir ação do Congresso, impedir a ação da polícia ou atacar agentes. Dos réus, 165 se declararam culpados e 70 já foram julgados: 38 receberam penas de prisão –a mais dura delas foi de 5 anos e 3 meses. Nesta quarta (5/01), o secretário Merrick Garland disse que o órgão “continua comprometido a responsabilizar todos os perpetradores do 6 de Janeiro […], quer estivessem presentes no dia, quer sejam criminalmente responsáveis pelo ataque à nossa democracia”.

Ainda há muitos suspeitos desconhecidos, no entanto. O FBI criou uma página na internet com mais de 1.500 imagens e vídeos de participantes do ato que ainda não foram identificados. Há recompensas para quem ajudar a polícia, que chegam a US$ 100 mil para dicas que ajudem a encontrar quem colocou bombas em trechos de encanamento de Washington, em 5 de janeiro (encontradas antes de explodir).

Para William Galston, do Instituto Brookings, além das investigações é preciso fazer mudanças legislativas que defendam a democracia e previnam um novo ataque do tipo. Ele cita como exemplo a reforma da Lei de Contagem Eleitoral, de 1887. “Ela é vaga em questões-chave, o que a deixa exposta a sérios questionamentos constitucionais, caso precise ser usada para resolver uma futura eleição presidencial contestada”, diz.

Na parte de segurança física, a polícia do Capitólio reviu procedimentos, ganhou reforços e passou a trocar mais informações com outros órgãos do governo, inclusive de inteligência, para receber alertas sobre possíveis ameaças. Um dos indicadores acompanhados são reservas de passagens e hotéis: uma alta atípica pode indicar a preparação para um eventual ataque, por exemplo.

Em 18 de setembro houve uma amostra do resultado desse trabalho. Uma grande estrutura de proteção foi mobilizada para um protesto que pedia penas mais brandas aos invasores do Congresso. Houve reforço no número de agentes, barreiras ao redor do Congresso e o uso de caminhões basculantes, com areia na caçamba, como uma proteção móvel.

Os veículos são adotados há anos para a formação de barreiras de segurança no país. Eles garantem proteção contra ataques feitos com carros, dificultam a circulação de pessoas e podem ser movidos rapidamente, conforme a necessidade. A areia na caçamba aumenta o peso do caminhão, tornando a barreira mais forte e eventualmente ajudando a conter os efeitos de uma bomba.

Nesta quinta (6/01), o FBI disse não ter informações concretas sobre possíveis ameaças, mas informou que haverá um reforço do alerta para as forças de segurança na capital. Ao longo do dia, serão realizados eventos dentro e fora do Capitólio para lembrar a invasão. Entre eles, um discurso de Biden –que, segundo sua porta-voz, vai destacar “a singular responsabilidade de Trump pelo caos e carnificina” vistos.

A ideia, agora, é ajudar a evitar que uma situação como aquela se repita. Trump, por sua vez, cancelou uma entrevista que daria para falar sobre o tema.

Investigados pelo congresso pelo 6 de janeiro

  • Donald Trump
    Então presidente, convocou protesto para questionar resultado da eleição; os presentes ao ato invadiram o Congresso logo depois. Tenta agora impedir, na Justiça, que investigadores acessem registros de suas conversas.
  • Mark Meadows
    Era chefe de gabinete de Trump. Recebeu mensagens de vários aliados na ocasião alertando para que o presidente agisse para conter os invasores. Recusou-se a depor ao Congresso, mas recuou e entregou as mensagens após ser pressionado.
  • Michael Flynn
    Ex-conselheiro de Segurança Nacional, esteve em uma reunião em dezembro na Casa Branca na qual se debateram medidas radicais para tentar mudar o resultado da eleição presidencial, como invocar medidas de emergência nacional.
  • Jeffrey Clark
    Pressionou colegas do Departamento de Justiça a ajudar Donald Trump a elaborar uma estratégia para mudar o resultado das urnas.
  • John Eastman
    Advogado, escreveu um memorando citando maneiras pelas quais o republicano poderia seguir no poder mesmo após a derrota no pleito.
  • Sean Hannity
    Apresentador da Fox News e confidente de Trump. Foi chamado a depor na comissão do Congresso por causa de indícios de que sabia detalhes dos planos do então presidente para o 6 de Janeiro. Os também âncoras Laura Ingraham e Brian Kilmeade também são citados, mas ainda não investigados, por terem enviado mensagens tentando convencer Trump a fazer algo para conter a invasão.
  • Steve Bannon
    Estrategista da vitória de Trump em 2016, se afastou do político depois. Foi preso e processado por se recusar a depor no Congresso sobre a invasão de 6 de Janeiro.
  • Scott Perry e Jim Jordan
    Deputados republicanos, são suspeitos de envolvimento em tentativas de reverter a derrota de Trump. Perry já se recusou a depor.
  • Phil Waldron
    Coronel reformado do Exército, elaborou um documento com vários planos para tentar mudar o resultado da eleição de 2020.

Por Rafael Balago

 

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