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EUA menosprezaram Bin Laden antes de declará-lo inimigo número 1

Terrorista surgiu no radar americano nos anos 1980, como aliado de ocasião contra soviéticos

Foto: Reprodução

No início da década de 1990, Osama bin Laden havia se tornado persona non grata no Sudão, onde tinha estabelecido uma base para sua nascente rede de terror.
Incomodado com o apoio dado pelo saudita a movimentos islâmicos no país, o governo sudanês procurou os EUA com uma proposta: levar Bin Laden embora, preso.

Os americanos declinaram da oferta, achando que não valeria a pena, por se tratar de um militante menor.

Mais do que um erro de avaliação de proporções trágicas, a história mostra como a percepção dos EUA sobre aquele que viria a ser o responsável pelo mais impactante ato terrorista de todos os tempos mudou ao longo dos anos. “Os EUA demoraram para perceber o potencial destrutivo de Bin Laden e o quão perigoso ele poderia ser”, diz Nigel Inkster, ex-agente do serviço secreto britânico por 30 anos e atualmente ligado ao International Institute for Strategic Studies, de Londres.

Nas três décadas em que esteve no radar americano, Bin Laden assumiu diversas facetas para a superpotência. Nos anos 1980, quando lutava contra a ocupação soviética no Afeganistão, era um aliado de ocasião. Em grande parte dos anos 1990, quando viveu seus anos de ostracismo, era visto no máximo como uma fonte de inconvenientes, um ator secundário no mapa do terror internacional.

Isso só mudaria no final daquela década, a partir de uma série de ataques que podem ser considerados uma espécie de ensaio geral do 11 de Setembro. São desse período os atentados contra as embaixadas dos EUA em Nairóbi (Quênia) e Dar es Salaam (Tanzânia), em 1998, que deixaram 224 mortos. E também a explosão provocada no navio de guerra americano USS Cole na costa do Iêmen, em 2000, com 17 vítimas.

Bin Laden passou então a ser um criminoso internacional procurado, com uma recompensa sobre sua cabeça. Mas o status de superterrorista só foi adquirido após a derrubada das Torres Gêmeas e o ataque ao Pentágono, em 2001. Essa condição seria mantida até sua morte, dez anos depois, no Paquistão.

“Bin Laden é uma figura muito simbólica para o terror global, iniciou o processo que nos trouxe até aqui. As respostas precárias e equivocadas dos EUA ajudaram a cimentar essa situação”, diz Barak Mendelsohn, coordenador do Projeto de Pesquisa em Terrorismo Global do Haverford College, nos EUA.

Segundo ele, Bin Laden começou a construir sua reputação após a vitória dos mujahedins (guerreiros islâmicos) sobre os soviéticos no Afeganistão, em 1989. O saudita nascido em família rica, herdeiro de um conglomerado de construção civil, nunca foi exatamente um protagonista naquele conflito. Até por isso, diz Mendelsohn, são exageradas as avaliações de que tivesse sido um aliado dos americanos na ocasião.

“Não temos evidência de que ele obteve algum tipo de apoio americano. Havia um inimigo comum, mas não cooperação. Não temos evidência de Bin Laden encontrando autoridades americanas, por exemplo.”

Inkster concorda: “Bin Laden forneceu dinheiro aos jihadistas e tecnologia. Mas ele nunca foi aliado dos americanos, não tinha contato com eles”.

Finda a guerra afegã, a massa de guerrilheiros de vários cantos do mundo islâmico que haviam atendido ao chamado da guerra santa viu-se vitoriosa, com moral elevado e bem-treinada. Mas sem rumo claro sobre o que fazer em seguida. “Havia duas visões predominantes do que fazer depois do Afeganistão. Uma era os guerrilheiros voltarem a seus países e lutar contra os regimes locais, seja no Egito, na Líbia ou na Argélia, por exemplo. Outra era combater em lugares em que muçulmanos estavam sob ocupação, como Caxemira, Bósnia, Chechênia ou Palestina”, afirma Mendelsohn.

Foi quando Bin Laden ofereceu uma terceira via, bem mais ambiciosa. “Ele passa a dizer que, para haver mudança para o mundo islâmico, primeiro é preciso atacar a cabeça da cobra, ou seja, os EUA, em vez de desperdiçar energia em outros lugares”, diz o analista.

Começa então a ser esboçada a Al Qaeda, que inovou ao adquirir contornos de uma multinacional do terror, comandada por integrantes de diversos países. Neste início, Bin Laden viveu alguns de seus anos mais difíceis, primeiro expulso da Arábia Saudita, para onde havia retornado após o período no Afeganistão, e depois do Sudão. Foi sob os auspícios do Talibã, de novo em solo afegão, que ele conseguiu estruturar sua organização e planejar seus atentados mais espetaculares.

Mas para ele e a Al Qaeda, o pós-11 de Setembro não foi apenas de euforia, diz Inkster.

“Muitos na Al Qaeda avaliaram que Bin Laden deu o passo maior do que a perna com o 11 de Setembro, pois fez algo que exigiu uma resposta firme dos EUA”, afirma Inkster.

Nesse momento, diz o especialista, a rede que Bin Laden havia criado pouco mais de uma década antes viu-se obrigada a fazer um recuo estratégico. “A Al Qaeda, em meados da década, foi colocada sob enorme pressão e não conseguia mais se manifestar como um fenômeno global único”, afirma.

Em resposta a essa situação, Bin Laden outra vez provou ser uma espécie de visionário, descentralizando sua rede e permitindo que diversas filiais surgissem pelo mundo islâmico, como se fossem franquias.

Surgiram Al Qaedas no norte da África, no Sahel, no Iêmen, no Paquistão e na Somália, entre outros locais. Muitas seguem atuantes até hoje, embora bem mais enfraquecidas com relação a seu auge.

Posteriormente, esse movimento de fragmentação iria se intensificar com o surgimento dos chamados “lobos solitários”, indivíduos radicalizados em países europeus ou nos EUA que adotavam a organização como um rótulo, uma inspiração. Mas sem ligação orgânica com ela.

Mesmo antes de ser localizado e morto, quando ainda era uma figura elusiva, Bin Laden adquiriu a derradeira personalidade de sua movimentada biografia: a de mito.

Para os americanos, um ícone do mal, figura que deveria ser eliminada sumariamente, sem que se cogitasse prisão ou julgamento. Como foi feito em maio de 2011 em Abbottabad, no Paquistão, onde foi localizado vivendo tranquilamente em um complexo residencial.

Já para as hordas de jihadistas que seguem atuantes pelo mundo, recentemente fortalecidas pela humilhação imposta aos americanos pelo Talibã no Afeganistão, Bin Laden segue sendo uma perigosa inspiração. “Bin Laden continua a ser um modelo para um grupo relativamente restrito de pessoas, mas que é grande o suficiente para criar muitos problemas. Sua imagem tende a crescer à medida que nos distanciamos de sua morte. As pessoas esquecem de suas muitas falhas”, afirma Mendelsohn.

Por Fábio Zanini