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PC Chinês recorre a pandas e cinema para expandir influência

Essa mudança deve passar pela promoção do "soft power" (poder brando). A China precisa de seu "soft power" para expandir sua influência no mundo.

Foto: Albert Barbosa

Lucas Alonso

Quando Xi Jinping, em junho, destacou a importância de que o Partido Comunista Chinês apresentasse ao mundo a imagem de uma “China crível, amável e respeitável”, os observadores mais ansiosos correram para levantar hipóteses a respeito de uma suposta mudança na abordagem diplomática do país.

“É preciso unir e conquistar a maioria e expandir constantemente o círculo de amigos no que se refere à opinião pública internacional”, disse o dirigente da ditadura chinesa aos mais altos membros do partido que completou 100 anos neste mês. “Devemos prestar atenção para entender o tom, ser abertos e confiantes, mas também modestos e humildes.”

O discurso, reproduzido pela imprensa estatal, de fato indicava, se não uma completa mudança de rota, ao menos um ligeiro ajuste nas coordenadas. Segundo a agência estatal de notícias Xinhua, Xi defendeu a promoção do multilateralismo, em detrimento da busca pela hegemonia, como forma de “moldar uma ordem internacional mais justa e equitativa e forjar um novo tipo de relações internacionais”.

Para o ex-diplomata Fausto Godoy, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos da ESPM, o PC Chinês vem tentando expandir sua influência porque precisa de uma nova imagem à medida em que se aproxima de um patamar de presença internacional que nunca teve.

“A China sempre teve muralhas para ninguém chegar perto. Ela sempre foi um império, e o resto do mundo era vassalo. Agora que o país é a principal potência comercial no mundo globalizado, ela tem que mudar a retórica, tem que ter outra cara”, diz.

Essa mudança deve passar pela promoção do “soft power” (poder brando). O conceito, cunhado nos anos 1990 pelo cientista político e professor da Universidade Harvard Joseph Nye, define que a influência de um país não se mede apenas por sua capacidade militar ou econômica, mas também pela empatia gerada pelos valores que projeta.

Essa tem sido uma das prioridades do regime chinês, e Xi deixou isso bem claro em 2014, durante uma reunião com a cúpula do regime. Na ocasião, o dirigente prometeu promover o “soft power”, disseminar os valores da China moderna e mostrar o charme da cultura do país ao mundo. “As histórias da China devem ser bem contadas, as vozes da China bem divulgadas e as características da China bem explicadas”, disse Xi.

Seu antecessor, Hu Jintao, durante o 17º Congresso Nacional do PC Chinês, em 2007, condicionou o “grande rejuvenescimento da nação”-o principal objetivo-slogan do partido- ao “florescimento da cultura chinesa”. Para Hu, a China precisa de seu “soft power” para expandir sua influência no mundo.

Na prática, isso ocorre de várias maneiras, algumas mais diretas que outras. Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, o então dirigente Mao Tse-tung (1893-1976) deu início ao que acadêmicos caracterizam como a primeira fase da “diplomacia dos pandas”, nome dado à prática de presentear, emprestar ou ceder em locação os ursos que são um dos principais símbolos chineses. Os animais eram enviados a zoológicos de países com quem o PC Chinês queria construir amizades estratégicas.

Com a ascensão de Deng Xiaoping (1904-1997), os presentes se tornaram empréstimos em um modelo de arrendamento capitalista baseado em transações financeiras. Na fase atual, o envio de pandas está associado a nações que fornecem recursos valiosos à China e simbolizam a disposição dos dirigentes em construir “guanxi”, um termo chinês usado para definir relações comerciais profundas caracterizadas por confiança, reciprocidade, lealdade e longevidade.

Em 2019, ao enviar o casal de pandas Ru Yi e Ding Ding para um zoológico em Moscou como parte de um projeto de pesquisa conjunto, Xi Jinping se referiu ao presidente russo como seu “melhor amigo” e conquistou, ao menos no discurso público, a simpatia de Vladimir Putin. “É um sinal de respeito especial para a Rússia. Estes animais são um símbolo da China e apreciamos muito tal gesto de amizade. Quando falamos de pandas, sempre terminamos com um sorriso no rosto”, disse, à época, o líder do Kremlin.

Nos últimos anos, contudo, outro tipo de “diplomacia animal” tem sido atribuída às autoridades chinesas: a do “lobo guerreiro”. O nome é uma referência a “Lobo Guerreiro 2” (2017), filme que alcançou a maior bilheteria da história do cinema chinês.

O longa conta a história de um ex-soldado de elite chinês que, vagando por países africanos não identificados, encarna uma espécie de “Rambo” asiático e ajuda a combater mercenários que querem derrubar o governo local e depois a proteger a cura para uma misteriosa doença mortal que está dizimando a população.

Poderia ser um filme de ação como outro qualquer, mas “Lobo Guerreiro 2” está carregado de simbolismos. Além das diversas aparições da bandeira chinesa e da trama principal que coloca a China em um papel mais atuante fora do contexto asiático, o principal vilão do filme é um mercenário americano que, em uma fala em inglês, tenta relegar ao protagonista a uma posição de inferioridade.

“Pessoas como você sempre serão inferiores a pessoas como eu, acostume-se”, diz o vilão americano ao protagonista chinês, prestes a matá-lo. O “lobo guerreiro”, por sua vez, reage e consegue inverter o cenário, esfaqueando seu inimigo até a morte antes de dizer em seu ouvido, em mandarim: “Você virou história”.

Exemplos da “diplomacia do lobo guerreiro” têm se tornado mais abundantes, inclusive próximos dos brasileiros. O embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, tem rebatido publicamente e com veemência ataques retóricos contra a China, como a insinuação feita pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) de que Pequim poderia estar escondendo informações sobre a pandemia de coronavírus e deveria ser responsabilizada pela disseminação da doença.

Para Paulo Menechelli, que pesquisa a diplomacia cultural e o “soft power” chineses em um programa de doutorado na Universidade de Brasília, o filme e a postura homônima mais aguerrida dos diplomatas chineses mostram uma China que, ao mesmo tempo em que descarta a ambição de impor seu modo de vida a outras nações, afirma que não está mais disposta a tolerar desrespeito.

“O que está sendo dito é que, diferentemente das potências ocidentais que tentam forçar o seu modelo a outros países, a China não faz isso. A ‘diplomacia do lobo guerreiro’ não é pra impor algo, para levar a ‘democracia’ usando um tipo de narrativa típica da política externa norte-americana.”

A mudança de narrativa também se dá em outras áreas, mas, para Menechelli, é por meio de produtos culturais que a China tem maior potencial de ampliar sua imagem no mundo. Para isso, não é necessário inventar a roda, já que a fórmula de fazer do cinema uma ferramenta de “soft power” é bastante conhecida e, particularmente, utilizada há décadas pelos EUA.

Outro exemplo está na literatura e na produção audiovisual. No ano passado, a Netflix anunciou a adaptação em série da premiada trilogia de ficção científica “O Problema dos Três Corpos”, do escritor chinês Liu Cixin.

A história começa na China dos anos 1960, em meio à Revolução Cultural, época de grande instabilidade social em que Mao impulsionou um movimento que visava banir tudo o que fosse considerado uma ameaça ao Partido Comunista. No livro, decisões tomadas por um grupo de cientistas nesse período ecoam ao longo das próximas décadas e deixam a humanidade vulnerável a invasões alienígenas.

Além de criar expectativas de uma megaprodução -que envolve os mesmos criadores de “Game of Thrones” e produção do diretor de “Guerra nas Estrelas: O Último Jedi”- o anúncio da adaptação fez com que um grupo de senadores republicanos dos EUA apelasse à Netflix pedindo o cancelamento da série, sob o argumento de que o autor é um disseminador da “perigosa propaganda” do Partido Comunista Chinês.

Embora os fãs chineses de ficção científica temam que a adaptação possa acabar distorcendo a obra para se adequar aos padrões do Ocidente, quaisquer mudanças que possam gerar algum tipo de interpretação negativa para a China correm o risco de não passar pelos filtros do Partido Comunista -o que deixaria a série distante de um dos maiores mercados mundiais do audiovisual.

Para além da produção cultural, o regime -e, particularmente, Xi- também tem a ambição de promover o “soft power” chinês por meio do futebol. Segundo artigo do acadêmico Emanuel Leite Júnior, cuja pesquisa de doutorado na Universidade de Aveiro (Portugal) investiga o papel do esporte na China, o investimento do Partido Comunista na popularização do futebol denota “aspirações geopolíticas” e “reforço da identidade e do orgulho nacional”.

O país onde, segundo a Fifa, está a origem histórica do futebol -uma prática chamada “cuju” que remonta ao século 2 a.C- lançou em 2016 um plano de desenvolvimento para se tornar uma potência mundial nessa modalidade de esporte até 2050.

O “sonho chinês”, termo frequentemente adotado por Xi em seus discursos e que simboliza o projeto político do Partido Comunista, também inclui participar da Copa do Mundo de futebol (a seleção chinesa conseguiu uma vaga em uma única ocasião, em 2002), sediar o evento (tem feito investimentos bilionários na construção de estádios para isso) e, quem sabe um dia, ser a grande campeã.