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Prisão de grupo de pedreiros nos EUA expôs caça às bruxas pós-11 de Setembro

Caso espelha mudança de natureza do FBI, de combate a crimes domésticos para prevenção a ataques terroristas

Foto: Divulgação

A prisão de sete homens em Miami arrepiou os Estados Unidos em 2006, quando o FBI anunciou que tinha evitado um atentado como aquele de 11 de Setembro, quiçá maior. Foi um trunfo do aparato de segurança. Tão importante que Robert Mueller, então diretor da polícia federal americana, foi ao programa do lendário entrevistador Larry King para falar sobre o caso.

Só que ficou claro, mais tarde, que a história não era bem aquela. Na verdade, os acusados -conhecidos como “os sete de Liberty City”, em razão do bairro empobrecido onde viviam- não haviam planejado um ataque. Eles tampouco tinham laços com a Al Qaeda ou acesso a armas.

O caso de Liberty City virou um dos exemplos emblemáticos de como o 11 de Setembro transformou as instituições americanas. O foco do FBI era até então o combate ao crime. Era uma função reativa, de responder a uma ameaça quando aparecesse. Sua natureza mudou. Passou a ser uma agência de inteligência doméstica responsável por antecipar e evitar o terrorismo.

“Foi um prenúncio, um retrato do futuro”, diz o diplomata americano Alberto Fernandez, que foi coordenador de comunicação estratégica anti-terrorismo no Departamento de Estado de 2012 a 2015. As forças de segurança receberam um mandato para perseguir terroristas. “Mas o que acontece quando não há tantos deles? Você sai em busca. Ou cria eles. Ou encoraja eles”, afirma.

A história dos sete de Liberty City começou quando um agente do FBI ouviu dizer que um grupo de pedreiros queria derrubar o governo americano. Membros de uma seita religiosa marginal, eles seguiam o líder messiânico Narseal Batiste –um homem de turbante que andava apoiado em um cajado.

Para investigar o grupo, o FBI decidiu usar a experiência acumulada no combate ao tráfico de drogas. A polícia criou uma armadilha, algo conhecido como “sting operation” no jargão. Um informante se infiltrou entre os sete suspeitos, posando como um membro da Al Qaeda.

Prometendo dinheiro para financiar o suposto grupo terrorista, o informante conseguiu gravar declarações de Batiste dizendo que queria fazer um ataque maior ainda do que o de 11/9, destruindo a Torre Sears, em Chicago. Os sete foram presos em seguida, no que o FBI bradou, à época, ter sido uma grande vitória.

Com o desenrolar dos anos, outra história veio à tona. Batiste e seu séquito, que tinham uma pequena empresa de construção, estavam endividados. Quando foram abordados pelo informante, decidiram enganá-lo –fingiriam ter interesse no plano do ataque para roubar os US$ 50 mil que o homem estava oferecendo (hoje, o equivalente a mais de R$ 250 mil).

É a história, ao menos, que Dan Reed conta no documentário “In the Shadow of 9/11” (à sombra do 11 de Setembro), recém-lançado. Reed é o diretor de “Leaving Neverland”, sobre os abusos sexuais de Michael Jackson contra Wade Robson e James Safechuck, quando crianças.

A técnica de “sting operation” é controversa. Um dos riscos é que as forças de segurança podem acabar incentivando suspeitos a cometer crimes que não cometeriam em outras circunstâncias. No caso dos sete de Liberty City, o FBI chegou a alugar um carro e oferecer câmeras para os suspeitos fotografarem os seus alvos e planejarem o ataque.

Isso criou a situação em que Batiste disse querer atacar a torre de Chicago sem ter armas, dinheiro, experiência ou contato com a rede Al Qaeda. Sem mesmo ter a intenção, na versão dele.

Houve dois julgamentos cancelados até que, em 2009, cinco dos sete foram condenados por terrorismo. As penas variaram de 6 a 13 anos de prisão. Um deles foi deportado para o Haiti, onde tinha nascido.

Hoje todos estão soltos. Não guardam rancor, afirmou o diretor Reed em entrevista à rede americana NPR. Mas seguem insistindo que eram inocentes.

Ao falar sobre Liberty City e os abusos da polícia, Fernandez culpa o que chama de “modelo de negócio” do combate ao terrorismo. Descreve a sociedade americana como consumidores, e os casos, produtos.

O FBI vive a perigosa tentação, explica, de seguir alimentando o sistema. Citando sua passagem pelo governo, Fernandez critica a pressão por resultado: “Números de casos, de prisões, de condenações, disso, daquilo”, diz. Em vez de combater o crime de fato.

“As autoridades querem mostrar sua habilidade, sua capacidade. Fazem isso impedindo planos reais, mas também dando visibilidade a casos mais nebulosos”, afirma, em referência ao Liberty City. “Era um grupo de pessoas estranhas com crenças esquisitas. Mas eles não eram jihadistas.”

Um dos resultados de casos como o de Liberty City e de todo o alarde feito em operações de combate ao terrorismo, diz Fernandez, é o contrário do esperado. O país não se sente mais seguro hoje. Pelo contrário.

Há a sensação de que o 11 de Setembro pode se repetir a qualquer momento –e de que o trabalho de agências como o FBI é a única barreira impedindo esse risco iminente, existencial.

Por Diogo Bercito