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Bolsonaro distorce estudo para defender divulgação de mortes por Covid ligadas a comorbidades

Na quarta (12), ele sugeriu que a variante ômicron é bem-vinda

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (PL) distorceu um estudo divulgado por um órgão sanitário dos Estados Unidos para minimizar, mais uma vez, os efeitos da Covid.

Ele afirmou ainda que o Ministério da Saúde está compilando dados sobre mortes por coronavírus no Brasil associadas a comorbidades e que essas informações serão tornadas públicas.

Em sua live semanal transmitida nas redes sociais, Bolsonaro mencionou um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), do governo americano, que indicaria que 75% das mortes por Covid ocorrem em pessoas com ao menos quatro comorbidades.

“Aqui também da CDC americana: 75% dos mortos por Covid tinham quatro comorbidades”, disse Bolsonaro.
Ao usar esse exemplo, Bolsonaro busca reforçar sua tese, difundida desde o início da pandemia, de que os números de óbitos de Covid estariam sendo inflados por casos de pessoas que já acumulavam uma série de outras enfermidades.

Mas o presidente distorceu a informação.
O estudo mencionado por Bolsonaro foi comentado em 10 de janeiro por Rochelle Walensky, diretora da CDC, durante uma entrevista televisiva.

Na verdade, a pesquisa estimou, segundo Walensky, que 75% das mortes por Covid entre pessoas vacinadas ocorrem em indivíduos com ao menos quatro comorbidades -ou seja, o estudo reforça o argumento de que a imunização é eficiente contra o vírus.

O presidente, por outro lado, é um crítico de vacinas contra a Covid. Ele questionou em diversas ocasiões a eficácia dos imunizantes e se opôs à ampliação da campanha de proteção às crianças.

O estudo distorcido por Bolsonaro buscou analisar os fatores de risco da Covid entre a população vacinada. Foram considerados fatores de risco idade superior a 65 anos, imunossupressão e outras seis condições.

“Todas as pessoas [imunizadas] com efeitos graves [da Covid] tinham ao menos um fator de risco; 78% dos que morreram tinham ao menos quatro”, diz o estudo, que destaca que os casos graves e mortes por Covid entre vacinados foram extremamente raros.

Após distorcer os dados do estudo na live, Bolsonaro afirmou que o ministério da Saúde deve divulgar no futuro estatísticas sobre mortes por Covid e comorbidades.

“Estes números [mortes por Covid de pessoas que tinham comorbidade] estão sendo compilados também aqui na Saúde. Quando tivermos condições vamos revelar para vocês quantos morreram, obviamente, o percentual das pessoas que tinham alguma comorbidade”, declarou Bolsonaro.

A promessa de Bolsonaro de divulgar dados sobre a Covid ocorre em meio a um apagão de informações oficiais do Ministério da Saúde sobre o estágio da disseminação do vírus no país.
Bolsonaro tem um histórico de declarações em que minimiza os impactos da Covid.

Na quarta (12), ele sugeriu que a variante ômicron é “bem-vinda”.
“Dizem até que seria um vírus vacinal. Deveriam até… Segundo algumas pessoas estudiosas e sérias -e não vinculadas a farmacêuticas -dizem que a ômicron é bem-vinda e pode sim sinalizar o fim da pandemia”, disse, durante uma entrevista.

Numa nova ofensiva para jogar dúvidas sobre vacinas, Bolsonaro disse na mesma ocasião que determinou ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a divulgação de casos de efeitos colaterais causados por imunizantes.

Por Ricardo Della Coletta