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Com candidatura de Ciro estremecida, PDT tem colcha de retalhos em alianças

A sigla considerada os palanques locais como vitrines para o nome do ex-ministro

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Em meio a dias de tensão quanto à candidatura de Ciro Gomes à Presidência da República, o PDT intensifica articulações para as eleições de 2022 nos estados. A sigla considera os palanques locais como vitrines para o nome do ex-ministro na corrida pelo Palácio do Planalto.

Ciro chegou a anunciar a suspensão da sua candidatura no dia 4, mas retornou ao páreo na semana seguinte após o seu partido rever a posição sobre a PEC dos Precatórios. Depois de apoiar a proposta em primeiro turno na Câmara, a sigla mudou de posicionamento, passando a ser contra.

Com a volta de Ciro ao jogo, o PDT segue na articulação pelos palanques nos estados, com prioridade para indicação de nomes para a chapa majoritária, seja para governador, vice ou nomes para a disputa do Senado.

A medida tem sido um requisito do presidente nacional do partido, Carlos Lupi, nas conversas individuais e em grupo com lideranças políticas dos estados.

As negociações formam uma colcha de retalhos e envolvem partidos da centro-esquerda, onde o PDT está presente historicamente, e da centro-direita, da qual a sigla tem se aproximado.
Repetindo o movimento feito nas eleições municipais de 2020 em capitais, o PDT tem firmado alianças com o DEM, que está em processo de fusão com o PSL para formar a futura União Brasil.

O pacto entre as duas legendas está presente na Bahia, onde os pedetistas devem apoiar o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (DEM) para o governo do estado. Isso porque a sigla trabalha com a expectativa de apresentar um nome para a vice na chapa.
Em 2020, o PDT indicou Ana Paula Matos para a vice de Bruno Reis (DEM), e a aliança saiu vitoriosa nas urnas. O desejo pedetista é repetir a dose na eleição estadual.

O PDT participou das gestões de Jaques Wagner e de Rui Costa (ambos do PT) na Bahia, inclusive no atual mandato do governador, mas passou para o lado de ACM Neto porque não viu espaço na chapa dos petistas para defender o nome de Ciro ao Planalto.
Em Pernambuco, o PDT já disse publicamente que não apoiará o PSB, com o qual tem aliança desde 2006, se os socialistas apoiarem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o cenário mais provável.

Além disso, o PDT não observa viabilidade para indicar um nome para o Senado na chapa do ex-prefeito do Recife Geraldo Júlio (PSB). Representantes de PP, PSD, Republicanos e PT disputam o posto e têm preferência em relação aos pedetistas.

Sendo assim, o PDT já se prepara para o plano B, que é uma aliança com o prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (DEM), pré-candidato a governador, com acordo para indicar um vice ou um senador na aliança.
Apesar de ser filho do líder do governo Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), Miguel já sinalizou, em aceno ao PDT, que não tem restrições para receber Ciro Gomes no seu palanque na campanha.

Se em Pernambuco o PDT tem veto a ficar no mesmo palanque que o PT, o panorama é oposto em locais como Maranhão e Ceará. Isso porque nesses dois estados o partido de Ciro terá candidatos próprios a governador e quer o apoio dos petistas.

No Maranhão, o senador Weverton Rocha é o nome do PDT para a sucessão de Flávio Dino (PSB). O parlamentar trabalha pelo apoio de Lula e tem a preferência do PT no estado, já que o nome predileto de Dino, o vice-governador Carlos Brandão, é do PSDB, e os petistas têm ressalvas para apoiar um tucano.

O cenário no Ceará é mais cômodo ao PDT, pois é reduto político de Ciro e do irmão dele, o senador Cid Gomes. Por lá, o nome mais cotado para ser o candidato do PDT a governador é o do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio.

Como já está na cabeça de chapa, o PDT não vê problemas em se aliar ao PT no Ceará. O plano pedetista é que o partido de Lula indique o governador Camilo Santana para o Senado, mas a ideia encontra resistência em setores petistas que defendem um palanque próprio do PT para marcar posição em prol de Lula, sem ser subordinado ao grupo de Ciro, que tem feito críticas e trocado farpas com o ex-presidente.

Em aceno aos petistas, Carlos Lupi disse que o PDT apoiará Lula em uma eventual disputa do petista contra Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022. A declaração foi proferida durante entrevista ao UOL na sexta-feira (12).

Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, Lupi articula uma aliança para a sigla estar presente no arco de apoiadores do prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que deverá disputar o governo do estado.

Apesar de não ter assegurada a garantia de indicar vice ou senador, o PDT espera retribuição pelo apoio que deu a Kalil em 2020, quando ele conseguiu a reeleição. Por sua vez, o prefeito da capital mineira tem simpatia por Ciro e apoiou o ex-ministro nas eleições de 2018.
Em Alagoas, o PDT não descarta se aliar ao PSDB, mesmo com os tucanos dando como certa uma candidatura à Presidência de João Doria ou Eduardo Leite, a depender do resultado das prévias internas da sigla no próximo dia 21.

A composição em Alagoas envolveria o senador Rodrigo Cunha, tucano, como candidato ao governo estadual, e o vice-prefeito de Maceió, Ronaldo Lessa, na posição de candidato a senador.
A articulação é feita pelo prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, do PSB, que foi apoiado publicamente por Ciro em 2020.

Em São Paulo, o PDT tem preferência pelo nome de Márcio França (PSB). Caso o socialista firme uma aliança para ser vice de Geraldo Alckmin, que flerta com o PSD, os pedetistas não têm ressalvas ao ainda tucano, que ocupou o Palácio dos Bandeirantes por quatro mandatos.

Já no Rio de Janeiro, o PDT está isolado no campo da esquerda e busca alianças com partidos do centrão, mas as chances são reduzidas porque o bloco está aliado ao governador Cláudio Castro (PL), que buscará a reeleição com apoio do presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, o cenário mais provável é que o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves seja postulante em chapa puro-sangue. A cidade é o principal reduto político pedetista no estado e é governada pela sigla desde 2013.

O PDT do Rio de Janeiro, berço político de Lupi, não quer apoiar Marcelo Freixo (PSB) na disputa pelo Palácio Guanabara porque o deputado federal tende a apoiar Lula já no primeiro turno da disputa presidencial.

Por José Matheus Santos