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‘Nem ela confiava no que estava vendendo pra gente’, diz Franco sobre vacina da Pfizer

Durante o depoimento, ex-secretário criticou os termos apresentados pela empresa ao governo brasileiro

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Em depoimento à CPI da Covid, nesta quarta-feira (9/6), o coronel Élcio Franco, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, criticou duramente a Pfizer, os termos apresentados pela empresa ao governo brasileiro e afirmou que havia desconfiança em relação à vacina que a farmacêutica americana oferecia.

“Diferente de outros laboratórios com os quais tratávamos, nos pareceu que ela queria se isentar da responsabilidade civil sobre efeitos colaterais graves, nem ela confiava no que estava vendendo pra gente. Essa foi uma primeira impressão”, afirmou.

O coronel também disse que as exigências não eram apresentadas a países desenvolvidos, como os Estados Unidos. E lembrou que a Pfizer respondeu a processos por promover medicamentos não aprovados pelo FDA, órgão equivalente à Anvisa nos EUA.

“Essas ações geram incertezas durante um processo de negociação”, afirmou o braço direito do ex-ministro Eduardo Pazuello.

Emails

Durante o depoimento de Franco, o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), lembrou que 81 correspondências foram enviadas pela Pfizer ao governo federal entre março de 2020 e abril deste ano. O senador afirmou que em cerca de 90% não houve resposta da gestão Jair Bolsonaro.

Franco argumentou que algumas correspondências citadas pelo senador eram respostas de demandas da pasta e que a empresa também mandava emails repetidos. Disse ainda que o primeiro contato dele com representantes da farmacêutica americana foi em agosto do ano passado.

“Em agosto eles nos apresentaram o primeiro memorando de entendimento e ele tinha as cláusulas que falamos. Nesse primeiro memorando eles já afirmavam que não garantiam o sucesso do desenvolvimento da vacina.”

Cloroquina

Ainda durante o depoimento,  Élcio Franco disse que tomou hidroxicloroquina para combater a Covid-19. Ele afirmou que teve de 25% a 50% do pulmão comprometido, mas poderia ter o caso agravado caso não tomasse o medicamento -que não tem eficácia comprovada contra a doença.

“O médico me recomendou, eu tomei na fase viral hidroxicloroquina, ivermectina, nitazoxanida, depois anticoagulantes e antibióticos também. O médico me recomendou e eu aceitei. Eu fui internado porque tive de 25 a 50% do pulmão comprometido e ainda estou em reabilitação.”

Ao ser questionado se mesmo tomando os medicamentos teve esse percentual de comprometimento do pulmão, afirmou que o quadro poderia ter sido mais acelerado e ficar pior caso não os tomasse. Ele já havia dito que defende o “atendimento precoce” com o uso de medicamento que o respectivo médico achar oportuno.

“Nossa gestão defendia o atendimento precoce do paciente, com medicamento que o médico julgar oportuno dentro da sua autonomia. Se for usar medicamento off label, que faça o esclarecimento para o paciente”, afirmou.

Coronavac

Élcio Franco  apresentou uma versão que choca frontalmente com a versão dada pelo Instituto Butantan, afirmando que as negociações para a compra da Coronavac nunca pararam.

Franco,  repete o argumento do ex-ministro Eduardo Pazuello, que afirmou que nunca houve ordem do presidente Jair Bolsonaro para interromper as negociações, apesar do vídeo mostrando a ordem de Bolsonaro. Além disso, em outro vídeo, Pazuello afirmou que “um manda, e o outro obedece”.

Em depoimento à CPI, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, garantiu que as negociações foram interrompidas após esse episódio.

“Todas essas negociações que ocorriam com troca de equipes técnicas, com troca de documentos, a partir desse momento, elas foram suspensas. Quer dizer, houve, no dia 19 [de outubro], um dia antes da reunião com o ministro, um documento do ministério que era um compromisso de incorporação, mas, após, esse compromisso ficou em suspenso e, de fato, só foi concretizado em 7 de janeiro”, afirmou.

Franco evitou falar que Dimas mentiu à CPI, mas manteve o argumento de Pazuello. “Eu acredito que foi uma questão de percepção do doutor Dimas Covas. Mas a área técnica estava sempre acompanhando o desenvolvimento da vacina”, afirmou.

“As tratativas não pararam e, inclusive, continuamos cobrando dados técnicos dos estudos clínicos. E inclusive, o Butantan demorava a reportar o que estávamos precisando”, completou.

Sobre a compra da Coronavac, Élcio Franco afirmou que a pasta não comprou antes, apesar das ofertas, porque ela ainda se encontrava na fase 3 de estudos clínicos.

Franco afirmou que essa fase é considerada “cemitério de vacinas”, por haver muita incerteza sobre o sucesso da vacina. Além disso, o coronel afirmou que a legislação brasileira não permitia na ocasião a compra de vacinas e medicamentos sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária(Anvisa).

A mudança na legislação se deu apenas no dia 6 de janeiro, com a edição de uma medida provisória. Franco não explicou diretamente por que a medida provisória não foi editada antes.

Franco também afirmou que a Coronavac não poderia ser enquadrada no caso de encomenda tecnológica, como se deu com a vacina da Astrazeneca.

A AstraZeneca usa a tecnologia do adenovírus, que não existia ainda, explicou o coronel. Ele afirmou ainda que, por isso, segundo a legislação brasileira, é possível fazer uma encomenda tecnológica. A vacina do Butantan utiliza a tecnologia de vírus inativado, que já é usada pelo Butantan. Então não se enquadra na encomenda tecnológica.